• Carmen Oliveira da Silva (1926 – 2025)

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Iyalorixá do Terreiro do Gantois

Mãe Carmen foi uma das mais importantes lideranças do candomblé baiano contemporâneo. Filha da célebre Mãe Menininha do Gantois, tornou-se a segunda Iyalorixá mais longeva da história do Terreiro do Gantois, conduzindo a casa de axé entre 2002 e 2025. Sua vida foi marcada pela convivência entre dois mundos: o da administração pública e o da tradição religiosa de matriz africana.

Iniciada no candomblé ainda na infância, aos sete anos de idade, Carmen cresceu dentro do Gantois, onde viveu grande parte da vida exercendo a função de Iyalaxé, responsável pelos fundamentos e pela preservação do axé da casa. Sua cabeça era consagrada ao orixá Oxalá, cuja regência se celebra às sextas-feiras. Carmen Oliveira da Silva nasceu em Salvador (BA), em 29 de dezembro de 1926. Casou-se com José Zeno da Silva, com quem teve duas filhas, Ângela Ferreira (Iyakekerê) e Neli Cristina (Iyadagan), além de netos e bisnetos que deram continuidade à sua linhagem familiar.

Antes de assumir a liderança religiosa, construiu uma longa carreira no serviço público. Foi auditora de controle externo do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE/BA), onde atuou por mais de três décadas. Aposentou-se em 25 de janeiro de 1991, sendo lembrada por colegas como uma profissional ética, competente e respeitada. No exercício da função pública, destacava-se tanto pelo rigor técnico quanto pela postura diplomática no trato com servidores e técnicos que recorriam ao tribunal.

Mesmo sendo filha de uma das mais reverenciadas ialorixás do Brasil, Carmen mantinha discrição sobre sua origem religiosa no ambiente de trabalho. Ainda assim, em determinado momento promoveu um encontro entre colegas do tribunal e o Terreiro do Gantois, criando uma oportunidade de aproximação com a cultura e a religiosidade afro-brasileira e contribuindo para a valorização e o respeito às tradições de matriz africana.

Com a morte de Mãe Menininha, em 1986, o Gantois passou pelo período ritual de axexê, momento de recolhimento e luto conforme os preceitos do candomblé. Posteriormente, sua irmã mais velha, Cleusa Millet, foi escolhida pelos orixás para assumir a liderança da casa em 1989. Com a partida de Cleusa para o Orum em 1998, o terreiro voltou a permanecer fechado por alguns anos, até que, em 2002, Carmen foi indicada pelos orixás para conduzir o destino da comunidade religiosa.

Confirmada como Iyalorixá em 30 de maio de 2002, durante festa dedicada a Oxóssi, Mãe Carmen assumiu a responsabilidade de liderar uma das casas de candomblé mais tradicionais do Brasil. Na ocasião, cerca de três mil pessoas acompanharam a cerimônia de reabertura do terreiro. Em entrevistas, explicou que a escolha da liderança espiritual ocorre de forma natural, segundo os desígnios da ancestralidade e dos orixás.

Durante seus 24 anos à frente do Gantois, Mãe Carmen dedicou-se à preservação das tradições religiosas, ao fortalecimento da comunidade e ao combate à intolerância religiosa. Sob sua liderança, o terreiro ampliou iniciativas de valorização cultural e patrimonial, incluindo projetos de preservação da memória de Mãe Menininha do Gantois e melhorias de acessibilidade e sinalização no espaço sagrado.

Seu trabalho também inspirou políticas públicas voltadas à valorização das religiões de matriz africana e ao desenvolvimento do chamado afroturismo na Bahia. O respeito e a sabedoria de Mãe Carmen eram amplamente reconhecidos por autoridades, pesquisadores, artistas e lideranças religiosas.

Em 2023, recebeu a Comenda Maria Quitéria, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de Salvador, em reconhecimento à sua contribuição cultural, religiosa e social para a cidade. Na mesma ocasião foi lançado o livro Awon Ona Jagun – Narrativas de Mãe Carmen de Osaguian, obra ilustrada que integra a coleção Ancestralidade, Sabedoria e Trajetória.

Mãe Carmen também autorizou diversas homenagens públicas à memória de Mãe Menininha do Gantois, entre elas o desfile da escola de samba Vai-Vai, em São Paulo, que celebrou o legado da matriarca do Gantois e a força das tradições afro-brasileiras.

Faleceu em 26 de dezembro de 2025, em Salvador, poucos dias antes de completar cem anos de idade. Sua partida ao Orum mobilizou homenagens em todo o país. O Governo da Bahia decretou três dias de luto oficial, enquanto instituições públicas e organizações da sociedade civil destacaram seu papel fundamental na preservação da cultura afro-brasileira e na luta contra a intolerância religiosa.

Em vida, Mãe Carmen costumava dizer que sua maior felicidade era ver a alegria de sua família, de seus filhos de santo e de suas amizades. Afirmava não cultivar arrependimentos nem temores, preferindo viver plenamente o presente: “Eu vivo o momento.”

Seu legado permanece vivo no Terreiro do Gantois e na memória das comunidades de axé, reafirmando a força das matriarcas do candomblé e da ancestralidade que sustenta as tradições afro-brasileiras.

Texto adaptado do Livro Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.

  • Sites:

BORGES, Tahis. De servidora exemplar à ialorixá longeva: a história de Mãe Carmen do Gantois. Correio 24 Horas, 27 de dezembro de 2025. Disponível em: De servidora exemplar à ialorixá longeva: a história de Mãe Carmen do Gantois | Jornal Correio. Acesso em 2 jan 2026.

Corpo de Mãe Carmen é enterrado após cortejo por terreiros e igreja em Salvador. Salvador: G1 BA, TV Bahia, 27 de dezembro de 2025. Disponível em: Corpo de Mãe Carmen é enterrado após cortejo por terreiros e igreja | G1. Acesso em 2 jan 2026.

Entenda o período de luto no Terreiro do Gantois após morte de Mãe Carmen; comunidade pede respeito durante o “axexê”. Alô Alô Bahia, 1º de janeiro de 2026. Disponível em: Entenda o período de luto no Terreiro do Gantois após morte de Mãe Carmen; comunidade pede respeito durante o “axexê” | Alô Alô Bahia. Acesso em 2 jan 2026.

GRASSO, Mariana; NICACIO, Luisa. Morre aos 98 anos a ialorixá do Terreiro do Gantois, Mãe Carmen. São Paulo: CNN, 26 de dezembro de 2026. Disponível em: Morre aos 98 anos a ialorixá do Terreiro do Gantois, Mãe Carmen | CNN Brasil. Acesso em 2 jan 2026.

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Mãe Carmen concedeu entrevista quando completou 10 anos à frente do Gantois. GloboPlay. Disponível em: Bahia Meio Dia – Salvador | Mãe Carmen concedeu entrevista quando completou 10 anos à frente do Gantois | Globoplay. Acesso em 2 jan 2026.

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MÃE CARMEM CELEBRA 21 ANOS COMO YALORIXÁ DO TERREIRO DE GANTOIS COM HONRARIA NA CÂMARA E LANÇAMENTO. Salvador: Bahia Meu Amor, 30 de maio de 2023. Disponível em: MÃE CARMEM CELEBRA 21 ANOS COMO YALORIXÁ DO TERREIRO DE GANTOIS COM HONRARIA NA CÂMARA E LANÇAMENTO. Acesso em 2 jan 2026.

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Terreiro do Gantois recebe folders e sinalização trilíngue do IPAC. Salvador: IPAC/BA – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, 27 de abril de 2016. Disponível em: Terreiro do Gantois recebe folders e sinalização trilíngue do IPAC | IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Acesso em 2 jan 2026.

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Terreiro do Gantois preserva culto aos orixás na Bahia e mantém costumes e legados milenares dos povos Iorubá. Salvador: G1 BA, 26 de dezembro de 2025. Disponível em: Terreiro do Gantois mantém costumes e legados milenares na BA; conheça | G1. Acesso em 2 jan 2026.

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