Cantora, intérprete maior da música popular brasileira e referência na valorização do samba e das culturas afro-brasileiras.
Clara Nunes nasceu em 12 de agosto de 1942, no então município de Cedro — hoje Caetanópolis —, em Minas Gerais. Filha caçula de Manuel Ferreira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes, integrou uma família de sete filhos. Cedro teve seu nome alterado em homenagem à família Caetano, proprietária da fábrica de tecidos Cedro & Cachoeira, eixo econômico da região e local onde seu pai trabalhava como marceneiro, conhecido como Mané Serrador. Além do ofício, Mané era violeiro e participava das festas de Folia de Reis, vínculo importante com a cultura popular local.
A infância de Clara foi marcada por perdas precoces. Seu pai faleceu quando ela tinha apenas dois anos, vítima de atropelamento. Pouco depois, sua mãe adoeceu e morreu em 1948, em decorrência de um câncer. Órfã ainda muito pequena, Clara foi criada pelos irmãos Maria e Pedro — Didinha e Zé Chilau. Na infância, frequentava aulas de catecismo e cantava ladainhas em latim no coro da igreja, experiência que contribuiu para sua formação vocal. Paralelamente, suas referências musicais eram profundamente populares, como Carmem Costa, Ângela Maria, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira, vozes femininas que marcaram gerações e influenciaram sua sensibilidade artística.
Ainda menina, Clara já demonstrava talento e presença. Em 1952, aos dez anos, venceu um concurso musical local ao interpretar Recuerdos de Ypacaraí, sinalizando uma vocação que se desenvolveria com força ao longo das décadas seguintes. Aos 14 anos, começou a trabalhar como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, trajetória comum entre jovens da cidade. Viveu em Caetanópolis até os 16 anos, quando se mudou para Belo Horizonte para morar com os irmãos Vicentina e Joaquim. Na capital mineira, conciliou o trabalho na indústria têxtil com os estudos noturnos no curso normal e a participação no Coral Renascença da igreja local.
Em Belo Horizonte, Clara conheceu o violinista Jadir Ambrósio, compositor do Hino do Cruzeiro, que reconheceu sua potência vocal e a levou a programas de rádio, como Degraus da Fama. Nessa fase, apresentava-se como Clara Francisca e logo se destacou nos concursos de calouros, culminando com a vitória no prestigiado programa de Ary Barroso. Sua voz firme, potente e ao mesmo tempo delicada começou a ganhar projeção nacional.
No início da carreira profissional, durante a década de 1960, Clara transitou por diferentes estéticas musicais, dialogando com a Jovem Guarda e participando de produções cinematográficas como Na Onda do Iê-Iê-Iê (1966), Carnaval Barra Limpa (1967) e Jovens pra Frente (1968). Essa fase revelou sua versatilidade artística e foi fundamental para sua projeção no cenário cultural brasileiro.
A virada decisiva ocorreu no final da década de 1960 e início dos anos 1970, quando Clara direcionou sua carreira para o samba e para a valorização das raízes populares brasileiras. Com apoio do radialista Adelzon Alves, construiu uma imagem artística fortemente associada ao samba, à cultura afro-brasileira e à ancestralidade. Esse reposicionamento se consolidou com o disco Clara Nunes (1971), cuja capa e concepção estética marcaram uma nova etapa de sua trajetória.
Nesse processo, Clara se aproximou das escolas de samba do Rio de Janeiro e foi acolhida pela Portela, tornando-se uma de suas principais intérpretes. Seu envolvimento com o samba se deu não apenas como gênero musical, mas como expressão cultural, histórica e política do Brasil negro. Ao mesmo tempo, aprofundou sua relação com a Umbanda e o Candomblé, incorporando elementos dessas tradições tanto em sua vida espiritual quanto em sua estética artística, com roupas, símbolos e referências que reafirmavam a ancestralidade africana.
Durante os anos 1970, Clara Nunes rompeu um tabu histórico da indústria fonográfica brasileira: tornou-se a primeira mulher a vender mais de 100 mil cópias de um disco, com o LP Alvorecer (1974). Ao longo da década, suas vendas ultrapassaram marcas entre 400 mil e 600 mil cópias por álbum, somando cerca de 4,4 milhões de discos vendidos ao longo da carreira. Seu sucesso estava diretamente ligado ao profundo respeito e estudo das tradições populares, do samba de raiz e das culturas afro-brasileiras.
Clara tornou-se a principal intérprete de compositores ligados à Portela e ao samba carioca, como Candeia, Paulinho da Viola, Monarco e tantos outros. Sua presença de palco era marcante: turbantes, colares, tecidos e gestos evocavam força, espiritualidade e pertencimento. Por isso, passou a ser reconhecida por alcunhas como A Guerreira, A Sabiá e A Mestiça Mística, símbolos de uma artista que cantava o Brasil profundo.
A parceria com o poeta e letrista Paulo César Pinheiro, com quem se casou, foi central em sua trajetória. Juntos, fundaram o Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, espaço dedicado à música e à cultura brasileira. Embora tenha composto apenas uma canção, A Flor da Pele, em parceria com Pinheiro e Maurício Tapajós, Clara foi uma intérprete visceral, responsável por eternizar obras como Canto das Três Raças, O Mar Serenou, A Deusa dos Orixás, Guerreira, Conto de Areia e Morena de Angola.
Clara Nunes faleceu precocemente em 2 de abril de 1983, aos 40 anos, em decorrência de complicações após uma cirurgia. Sua morte comoveu o país. Mais de 50 mil pessoas acompanharam seu velório na quadra da Portela, e uma multidão seguiu o cortejo até o Cemitério São João Batista. Em sua homenagem, a Prefeitura do Rio de Janeiro rebatizou a rua da quadra da Portela como Rua Clara Nunes.
Sua memória e legado seguem vivos. Em Caetanópolis, sua irmã Maria Gonçalves organizou um acervo que deu origem ao Memorial Clara Nunes, e posteriormente ao projeto do Museu Clara Nunes, instalado no antigo Cinema Clube Cedrense, local de sua primeira apresentação. O acervo, hoje coordenado por seu sobrinho Márcio Guimarães, reúne mais de seis mil peças.
Clara Nunes permanece como uma das maiores expressões da música popular brasileira. Sua trajetória abriu caminhos para mulheres na indústria cultural, reafirmou o samba como patrimônio vivo e contribuiu de forma decisiva para a valorização das culturas afro-brasileiras. Seu canto segue ressoando como memória, resistência e beleza. A voz de uma guerreira que transformou arte em permanência.
Texto: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher
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REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Dicionário Mulheres do Brasil, de 1500 até a atualidade: biográfico e ilustrado. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: Mulheres Negras do Brasil 9788574582252 – DOKUMEN.PUB
- Sites:
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