Ativista em defesa dos direitos das mulheres, liderança na luta por moradia e referência na organização de mulheres em situação de prostituição.
Cleone Santos nasceu em 1957, em Juiz de Fora (MG). Mãe de dois filhos e avó de três netos, iniciou sua trajetória como operária nas indústrias do ABC paulista, onde se aproximou do movimento sindical e deu os primeiros passos na militância social. Atuou na organização de núcleos de trabalhadores desempregados e mergulhou na luta por moradia — dois eixos centrais das mobilizações populares das décadas de 1980 e 1990. Essa experiência forjou uma liderança construída fora dos espaços institucionais da política, enraizada na sobrevivência cotidiana, na solidariedade de base e na escuta das ruas.
Nos anos 1980, após enfrentar o desemprego, a separação de um casamento abusivo e a responsabilidade de sustentar sozinha os filhos, Cleone passou a viver em situação de prostituição no centro de São Paulo. Trabalhou por 18 anos principalmente na região da Luz e do Bom Retiro. Ali, tornou-se referência entre mulheres que, como ela, buscavam sobreviver em um contexto marcado pela violência, pela exploração e pela ausência de políticas públicas.
Sua militância nunca cessou. Atuou na Pastoral das Mulheres Marginalizadas, ligada à CNBB, e se aproximou do movimento feminista por meio da Marcha Mundial das Mulheres, mantendo sempre uma postura crítica às propostas de regulamentação da prostituição que desconsideravam as vozes das próprias mulheres diretamente afetadas. Nesse percurso, conheceu a freira Regina, da ordem Passionista, com quem fundou a ONG Mulheres da Luz, no Bom Retiro (SP), dedicada ao acolhimento e à emancipação de mulheres em situação de prostituição.
O trabalho da Mulheres da Luz teve início de forma improvisada, em praças públicas, e por anos funcionou em um porão no Parque da Luz. Durante a pandemia de Covid-19, campanhas de arrecadação permitiram a locação de uma casa, ampliando as condições de acolhimento. A organização atua, até hoje, oferecendo alternativas concretas de dignidade, saúde, geração de renda e reinserção social, especialmente para mulheres entre 40 e 70 anos — em sua maioria mães e avós, muitas vezes responsáveis pelo sustento de famílias inteiras.
Cleone afirmava que a prostituição não era uma escolha individual, mas consequência direta da ausência do Estado e da desigualdade estrutural. Para ela, o papel da organização era “resgatar o direito ao sonho”: sonhar em estudar, ter uma casa, criar os filhos com segurança. Em entrevista à Carta Capital, sintetizou essa visão ao afirmar: “A maioria das mulheres que nós atendemos são mulheres pretas… Vai se tirando tudo delas: o direito à casa, à educação, até o de ir e vir. Sonhar é esperança. E a gente precisa sonhar, sonhar e sonhar”.
Em reconhecimento a uma vida dedicada à transformação da realidade de mulheres pobres, negras e marginalizadas, Cleone foi nomeada, em 2021, coordenadora de Políticas Públicas para as Mulheres de Diadema, município mais populoso do Grande ABC. Levou para a gestão pública sua experiência de militância social, aproximando o poder público das mulheres que nunca haviam ocupado um gabinete institucional. Criou pontes com movimentos sociais, priorizou o contato direto e trabalhou para implantar políticas de acolhimento e inclusão, sempre longe dos holofotes.
Embora atuasse a partir de uma perspectiva visivelmente feminista, Cleone dizia não “saber o que era feminismo”. Sua referência era a própria mãe — mulher forte e solidária — e a prática cotidiana do cuidado, da resistência e da organização coletiva. Sua trajetória revela um feminismo vivido na prática, construído nas margens, antes e além das nomeações acadêmicas, inscrito na experiência histórica das mulheres negras e populares.
Cleone foi presença ativa em diversos movimentos populares nas décadas de 2010 e 2020, como o Movimento de Mulheres Olga Benário, e participou desde o início da ocupação da Casa Carolina Maria de Jesus, em Santo André (SP). Foi ela quem revelou que o local havia funcionado como um prostíbulo exploratório, lutando para que o espaço se transformasse em lugar de acolhimento e organização das mulheres.
Em sua homenagem, foi criada a Ocupação Cleone Santos, a 16ª ocupação de mulheres da América Latina. O espaço sofreu ataques de grupos ligados à extrema-direita, como em 2023, quando homens armados invadiram o local, agrediram ocupantes e vandalizaram o prédio destinado ao acolhimento de mulheres vítimas de violência.
Cleone Santos faleceu em 10 de maio de 2023, aos 65 anos. A cidade de Diadema decretou luto oficial de três dias. Sua morte foi silenciosa, mas sua vida segue ecoando nas mulheres que acolheu, nas organizações que ajudou a construir e nas políticas públicas que influenciou. Seu legado permanece como memória viva e farol para quem insiste na construção de uma sociedade justa, igualitária e livre de opressões.
Texto: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher
Palavras-chave: #política #prostituição #trabalho #ONG #ativismo #SãoPaulo #lutapormoradia #direitosdasmulheres
REFERÊNCIAS:
- Sites:
Cleone Santos: Uma Mulher de Luz. Vidas em Cordel, Museu da Pessoa. Disponível em: Cleone Santos: Uma Mulher de Luz | Vidas em Cordel. Acesso em 14 jun 2025.
Diadema decreta luto de três dias pelo falecimento de Cleone Santos. Diadema: Prefeitura de Diadema, 12 de maio de 2023. Disponível em: Diadema decreta luto de três dias pelo falecimento de Cleone Santos – Prefeitura de Diadema. Acesso em 14 jun 2025.
MAGALHÃES, Victória. Cleone Santos, uma mulher que dedicou sua vida a todas as mulheres. A Verdadem 10 de novembro de 2023. Disponível em: Cleone Santos, uma mulher que dedicou sua vida a todas as mulheres – A Verdade. Acesso em 11 jun 2025.
MORENO, Tica; ZELIC, Helena. Cleone Santos: uma vida de lutas por um mundo livre de patriarcado. Capire, 15 de junho de 2023. Disponível em: Cleone Santos: uma vida de lutas por um mundo livre de patriarcado – Capire. Acesso em 14 jun 2025.
NUNES, Henrique. Um ano sem Cleone Santos: legado inspira luta por defesa de mulheres que se prostituem. Focus Brasil, 22 de maio de 2024. Disponível em: Um ano sem Cleone Santos: legado inspira luta por defesa de mulheres que se prostituem – Revista Focus Brasil | Revista Focus Brasil. Acesso em 14 jun 2025.
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RIBEIRO, André. Coordenadoria de Mulheres leva adiante o legado de Cleone Santos. Diadema: Prefeitura de Diadema, 21 de dezembro de 2024. Disponível em: Coordenadoria de Mulheres leva adiante o legado de Cleone Santos – Prefeitura de Diadema. Acesso em 14 jun 2025.
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