Escritora, crítica literária, editora, feminista e imortal da Academia Brasileira de Letras
Heloisa Teixeira nasceu em 26 de julho de 1939, em Ribeirão Preto (SP), e mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda na infância. Formou-se em Letras Clássicas pela PUC-Rio e realizou mestrado e doutorado em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Posteriormente, realizou pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia, em Nova York. Professora emérita da UFRJ, foi, até 2025, diretora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC-Letras/UFRJ).
Intelectual de atuação ampla e inquieta, Heloisa construiu uma trajetória singular ao articular universidade, produção cultural e ativismo feminista. Dirigiu a Aeroplano Editora e Consultoria, a Editora UFRJ e o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ), além de idealizar e coordenar projetos culturais e de comunicação como o Programa Culturama (TVE) e Café com Letra (Rádio MEC). Atuou também na direção de documentários e na curadoria de exposições que dialogavam com cultura popular, política, memória e arte contemporânea, como Dez anos sem Chico Mendes (1998), Estética da Periferia (2005) e Vento Forte: 50 anos de Teatro Oficina (2009).
Desde os anos 1970, Heloisa foi uma das principais mediadoras entre a crítica acadêmica e as expressões culturais consideradas marginais ou periféricas. Organizou a coletânea 26 Poetas Hoje (1976), obra decisiva para o reconhecimento da chamada poesia marginal, revelando nomes como Ana Cristina Cesar. Sua produção intelectual tensionou os limites da crítica literária tradicional ao legitimar linguagens, estéticas e experiências sociais frequentemente desqualificadas pelo cânone.
Sua tese de doutorado, posteriormente publicada como Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde (1960–1970), enfrentou duras críticas por romper com os padrões formais do discurso acadêmico e por reconhecer valor cultural em produções consideradas “menores” ou “vulgares”. Como apontam estudiosos de sua obra, Heloisa buscava documentar a pluralidade das experiências artísticas juvenis como expressão legítima de um momento histórico, político e social. Sua escrita, muitas vezes em primeira pessoa, afirmava a crítica como prática viva, situada e comprometida.
No campo do feminismo, Heloisa foi pioneira ao articular crítica literária, estudos culturais e pensamento feminista. Organizou obras fundamentais como Explosão Feminista e a série Pensamento Feminista Hoje, contribuindo decisivamente para a circulação de ideias feministas no Brasil e para a renovação do debate acadêmico sobre gênero, cultura e poder. À frente do PACC, coordenou o projeto Universidade das Quebradas, iniciativa inovadora de diálogo entre universidade e saberes produzidos nas periferias urbanas, além do Fórum M, espaço de reflexão crítica sobre a condição das mulheres na universidade.
Em 28 de abril de 2023, Heloisa Teixeira foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 30. Tornou-se a décima mulher a integrar a ABL, instituição historicamente marcada pela exclusão feminina. Sua eleição foi resultado de amplo reconhecimento intelectual, obtendo 34 dos 37 votos possíveis. Em sua trajetória junto à Academia, destacou-se pela proposição de debates críticos, como o ciclo Machado Quebradeiro, que revisitou a obra de Machado de Assis a partir das perspectivas de raça e classe.
Pouco antes de sua posse, Heloisa decidiu abandonar o sobrenome Buarque de Hollanda, adotado em seu primeiro casamento, e retomar o sobrenome materno. O gesto teve forte dimensão simbólica e feminista, reafirmado em seu discurso de posse, no qual denunciou a desigualdade de gênero na composição da ABL e a persistente sub-representação das mulheres nas instituições culturais brasileiras.
Heloisa faleceu em 28 de março de 2025, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações respiratórias. Seu legado permanece vivo na crítica cultural brasileira, no feminismo acadêmico, nas políticas de democratização da cultura e nas múltiplas gerações de artistas, pesquisadoras e pesquisadorxs que encontraram em sua obra um convite permanente à ousadia intelectual e política.
Sua trajetória é marcada pela convicção de que cultura, linguagem e literatura são territórios profundamente políticos, espaços de disputa, memória e transformação social.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #cinema #literatura #feminismo #antirracismo #doutorado #abl #mulheresNaAcademia
REFERÊNCIAS:
- Sites:
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