• Maria da Purificação Lopes (meados do séc. XIX – 1941)

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1ª Baró e 2ª Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Nascida Maria da Purificação Lopes, conhecida no candomblé como Mãe Bada de Oxalá, foi a segunda Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, sucedendo Mãe Aninha, fundadora da casa. Figura de grande prestígio no universo do candomblé baiano, destacou-se por seu profundo conhecimento litúrgico e por sua atuação como conselheira espiritual respeitada por diversos terreiros.

A relação entre Mãe Bada e Mãe Aninha era marcada por forte vínculo de afeto e respeito. A própria Mãe Aninha referia-se a ela como “mãe”, e no Opô Afonjá era tratada por todos como “minha avó Bada”, expressão que revela a posição de autoridade e reverência que ocupava dentro da comunidade religiosa.

Filha de africanos, Mãe Bada falava o que, na época, era descrito como “enrolado” — uma mistura de português com palavras e expressões iorubás. Essa forma de falar remete às reflexões da intelectual Lélia Gonzalez sobre o chamado “pretuguês”, expressão que destaca a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil.

Seu nome sacerdotal era Olufan Deiyi, expressão iorubá que pode ser traduzida como “guerreiro que anuncia sua chegada” — nome que parece sintetizar bem sua presença marcante no mundo do candomblé. Reconhecida por seu vasto conhecimento sobre os rituais e fundamentos da religião, Mãe Bada era frequentemente consultada para solucionar dúvidas e conflitos litúrgicos entre diferentes casas de axé.

Antes de assumir a liderança do Ilê Axé Opô Afonjá, já exercia ali a função de Baró, posição de grande prestígio associada ao aconselhamento e à mediação de questões espirituais. A Baró é tradicionalmente vista como “aquela que medita e aconselha”, papel que Mãe Bada desempenhou com grande sabedoria e respeito.

Em 1939, ao suceder a Mãe Aninha como segunda Iyalorixá do Opô Afonjá, Mãe Bada deu continuidade ao fortalecimento da casa. Nesse mesmo ano, inaugurou o Ilê Ibó, espaço dedicado ao culto dos ancestrais, criado para assegurar que determinadas obrigações religiosas fossem realizadas de acordo com a tradição. Também iniciou a construção da casa de Ogum, da casa de Xangô e deu continuidade às obras do novo barracão do terreiro.

Essas informações são registradas por Esteva dos Santos Freitas e Veronica Dias da Silva no artigo “Mãe Bada – Olufan Deiyi (1939–1941)”, publicado no livro Trajetórias das Ialorixás do Ilê Axé Opô Afonjá – de Mãe Aninha à Mãe Ana de Xangô.

Durante sua liderança, realizou apenas um barco de iaô, no qual foram iniciados Horonina (de Ossaim), José e Hilda (de Xangô), Senhorazinha e Dacruz (de Oxum) e Isabel (de Iansã). Entre as pessoas que a auxiliaram nessas iniciações estavam Maria Bibiana do Espírito Santo e Ondina Valéria Pimentel, que posteriormente se tornariam, respectivamente, a terceira e a quarta Iyalorixás do Opô Afonjá: Mãe Senhora e Mãe Ondina.

Curiosamente, poucos dias após esse barco de iniciação chegou ao terreiro Maria Stella de Azevedo Santos, que anos mais tarde se tornaria a quinta Iyalorixá da casa, Mãe Stella de Oxóssi, uma das mais importantes lideranças do candomblé no século XX.

Mãe Bada de Oxalá faleceu em 1941, em data não registrada com precisão. Considerando que se estima seu nascimento em meados do século XIX, acredita-se que tivesse entre 60 e 80 anos, possivelmente mais.

Embora tenha permanecido pouco tempo à frente do Ilê Axé Opô Afonjá, seu impacto na história do terreiro foi profundo. Antes mesmo de se tornar Iyalorixá, já exercia influência significativa como Baró e como referência espiritual para o povo-de-santo da Bahia. Seu conhecimento e sua autoridade ajudaram a consolidar práticas religiosas, orientar gerações de iniciados e fortalecer os vínculos entre diferentes casas de candomblé.

Seu legado permanece vivo na memória do Opô Afonjá e na história do candomblé brasileiro, onde é lembrada como uma sacerdotisa de grande sabedoria, responsável por pavimentar caminhos para a continuidade da tradição e da comunidade de axé.

Em sua homenagem, destaca-se também a pintura do artista AJ Romani, que retrata Mãe Bada e circula em diferentes registros e publicações dedicados à memória do candomblé.

Texto inspirado no Livro Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

BRASIL. Câmara dos Deputados. Sessão: 176.4.53.O. Brasília, DF, 23 de agosto de 2010. Disponível em: Discurso do(a) Deputado(a) JOSÉ RIBAMAR FEITOSA DANIEL em 23/08/2010 �s 11:03. Acesso em 2 jan 2026.

FREITAS, Esteva dos Santos; SILVA, Veronica Dias da. Mãe Bada – Olufan Deiyhi (1939-1941). In OLIVEIRA, Maria Dulce Paradella Matos de; MATOS, Maria Teresa Navarro de Britto; SILVA, Sérgio Franklin Ribeiro da Silva (org.). Trajetória das Ialorixás do Ilê Axé Opô Afonjá: de Mãe Aninha à Mãe Anna de Xangô. Salvador: UFBA – Universidade Federal da Bahia, 2025. Disponível em: Universidade Federal da Bahia: Trajetória das Ialorixás do Ilê Axé Opô Afonjá : de Mãe Aninha à Mãe Ana de Xangô. Acesso em 2 jan 2026.

LEITE, Agatha da Silva. A contribuição de Maria Stella Azevedo dos Santos para a educação brasileira: um debate sobre nossas formas de educar. Nova Iguaçu: UFRRJ – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: sipac.ufrrj.br_sipac_protocolo_document…izacao.jsf_imprimir=true&idDoc=1514153. Acesso em 2 jan 2026.

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.

  • Sites:

Mãe Bada de Oxalá. Terreiro Tumbanse, 10 de março de 2009. Disponível em: TERREIRO TUMBANSÉ: Mãe Bada de Oxalá. Acesso em 2 jan 2026.

MARIA DA PURIFICAÇÃO LOPES (MÃE BADA). Ìyá mi Àgbà, Facebook, 6 de março de 2019. Disponível em: (13) Ìyá mi Àgbà – MARIA DA PURIFICAÇÃO LOPES (MÃE BADA) Mãe Bada de… | Facebook. Acesso em 2 jan 2026.

Maria da Purificação Lopes – Mãe Bada de Oxalá Segunda Iyalorixá do @ileopoafonja.ba. ajromani, odeajarte, Instagram, 6 de setembro de 2025. Disponível em: (1) Instagram. Acesso em 2 jan 2026.

Religião Respeito Humildade. Facebook, 14 de setembro de 2018. Disponível em: (12) Facebook. Acesso em 2 jan 2026.

SANTOS, José Felix dos. MÃE SENHORA – 110 ANOS DO NASCIMENTO. Jeito Baiano. Disponível em: MÃE SENHORA – 110 ANOS DO NASCIMENTO | Jeito Baiano. Acesso em 2 jan 2026.

Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá: 100 anos de afirmação da identidade negra. Salvador: SECOM – Secretaria de Comunicação Social, 30 de julho de 2010. Disponível em: Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá: 100 anos de afirmação da identidade negra | SECOM – Secretaria de Comunicação Social. Acesso em 2 jan 2026.

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