• Maria Marques (1897 – 1979)

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Mulher marcada pela violência do cangaço e símbolo de resistência no sertão nordestino.

Maria Marques viveu no sertão nordestino, na região de Canindé (CE), em um período marcado pela presença do cangaço, fenômeno social e político que atravessou o Nordeste entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesse contexto, grupos armados, conhecidos como cangaceiros, circulavam pelo interior, ora enfrentando forças policiais, ora impondo sua própria lógica de poder sobre populações locais, frequentemente através da violência.

Foi nesse cenário que Maria Marques entrou para a história.

Ela foi vítima de um ato extremo cometido por Zé Baiano, um dos cangaceiros mais temidos de seu tempo, conhecido por práticas de violência brutal, especialmente contra mulheres. A agressão sofrida por Maria não foi um fato isolado, mas parte de uma dinâmica recorrente de vingança entre homens, na qual os corpos femininos eram utilizados como território de punição e demonstração de poder.

O conflito teve origem em uma rixa entre Zé Baiano e o irmão de Maria Marques, que era soldado. Em meio a essa disputa, o irmão de Maria teria agredido a mãe do cangaceiro. Como resposta, Zé Baiano não buscou confronto direto com seu adversário, mas capturou Maria e outras três mulheres de sua família. Todas foram marcadas a ferro quente no rosto com as iniciais “JB” — de José Baiano.

O episódio evidencia uma lógica profundamente marcada pelo machismo: homens em conflito que atingem mulheres como forma de vingança. Tanto a agressão contra a mãe de Zé Baiano quanto a violência cometida contra Maria Marques revelam essa engrenagem de brutalidade que atravessava o período.

Sobrevivente dessa violência, Maria Marques transformou sua própria existência em testemunho. Em vez de se apagar, permaneceu em seu território, convivendo com a marca imposta e com o olhar da comunidade. Com o tempo, passou a ser reconhecida como uma mulher de força incomum — não por ter escolhido o enfrentamento direto, mas por sustentar sua dignidade diante de uma violência que buscava exatamente o contrário: apagá-la, humilhá-la, reduzi-la.

Seu silêncio, muitas vezes interpretado como resignação, pode ser lido também como forma de resistência. Em um contexto em que as mulheres tinham poucas possibilidades de reação, permanecer, viver e seguir adiante já era, em si, um gesto político.

Maria Marques não foi cangaceira, nem personagem de feitos armados. Sua história é outra: é a de uma mulher comum atravessada por uma violência extrema, que, ainda assim, não foi reduzida a ela.

Ao longo dos anos, tornou-se uma figura admirada em sua comunidade, Canindé, no Ceará, símbolo de sobrevivência e de dignidade no sertão. Sua trajetória nos obriga a olhar para além das narrativas heroicas do cangaço e a reconhecer o lugar das mulheres, muitas vezes invisibilizadas, como vítimas diretas de disputas que nunca foram suas.

Texto escrito por por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

Palavras-Chave/TAG: #cangaço # #lutadeclasse #violencia #mulheres #nordeste #vítmadocangaço

REFERÊNCIAS:

  • Sites:

GOIS, Ancelmo. A mulher que foi ferrada na face, com ferro em brasa, pelo cangaceiro Zé Baiano. Instagram, jornaloglobo, 15 de outubro de 2025. Disponível em: Instagram. Acesso em 18 nov 2025.

LACERDA, Aluízio. A História de Dona Maria Marques e o Cangaceiro Zé Baiano. Blog Aluízio Lacerda, 9 de setembro de 2025. Disponível em: Aluizio Lacerda: Resultados da pesquisa A História de Dona Maria Marques e o Cangaceiro Zé Baiano. Acesso em 18 nov 2025.

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