Arqueóloga, pesquisadora sobre a presença humana nas Américas e defensora radical da memória, da ciência e da vida.
Niède Guidon nasceu em 12 de março de 1933, em Jaú (SP), filha de Cândida Viana de Oliveira Guidon e Ernesto Francisco Guidon. Formou-se em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em zoologia. Iniciou sua trajetória profissional em 1959 como professora e, posteriormente, integrou a seção de arqueologia do Museu Paulista, dando início a uma carreira que transformaria de forma definitiva a compreensão sobre a presença humana nas Américas.
Em 1966, Niède foi contratada como pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), na França. Mudou-se para Paris, onde realizou especialização em pré-história, doutorado e livre-docência em arqueologia pela Sorbonne, concluídos em 1975. Sua tese, dedicada às pinturas rupestres de Várzea Grande, no Piauí, foi fundamental para a criação, em 1979, do Parque Nacional da Serra da Capivara, hoje reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, com cerca de 129 mil hectares.
Durante sua permanência na França, Niède atuou como assistente da arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, referência mundial na arqueologia pré-histórica. Nos anos 1970, Annette liderou a missão arqueológica franco-brasileira em Lagoa Santa (MG), responsável pela descoberta do fóssil humano conhecido como Luzia, com aproximadamente 11,5 mil anos — por décadas considerado o mais antigo das Américas. O pioneirismo de ambas marcou profundamente a arqueologia brasileira, abrindo caminhos para leituras não eurocêntricas e não coloniais da história humana.
O trabalho de campo de Niède no sertão nordestino foi marcado por coragem, rigor científico e enfrentamentos constantes, diante da natureza hostil, com interesses econômicos locais e com estruturas de poder profundamente conservadoras. Logo em seus primeiros dias de escavação na Serra da Capivara, protagonizou um episódio que se tornaria lendário: ao descer em uma cavidade praticamente invisível, realizou a descoberta de restos fósseis de um tigre-dente-de-sabre com cerca de 11 mil anos. Na subida, foi atacada por um enxame de abelhas e sofreu milhares de ferroadas. Sem acesso imediato a soro antiofídico, passou a noite entre a vida e a morte. Ao amanhecer, ao recobrar a consciência, resumiu sua disposição científica e vital em uma frase que se tornou símbolo de sua trajetória: “Vamos voltar lá agora!”
Niède Guidon notabilizou-se internacionalmente a partir de suas descobertas em São Raimundo Nonato (PI). Em 1991, identificou artefatos de pedra lascada que indicavam a presença humana na região há pelo menos 25 mil anos. Anos depois, encontrou vestígios de fogueiras com resíduos de carvão datados em até 48 mil anos. A partir da análise de mais de 1.300 registros arqueológicos na região, Niède sustentou a tese de que a ocupação humana das Américas teria ocorrido muito antes do que defendia a teoria dominante, centrada na chegada via Estreito de Bering há cerca de 12 a 13 mil anos.
Com base em evidências arqueológicas, Niède defendeu que populações humanas teriam chegado ao continente americano a partir da África há cerca de 100 mil anos, hipótese que desafiou frontalmente o consenso científico hegemônico, fortemente marcado por uma visão norte-americana da história da humanidade. A resistência enfrentada por essa teoria foi intensa, mas jamais a fez recuar. Como ela própria afirmava, lutar contra paradigmas científicos eurocentrados era menos difícil do que enfrentar os coronéis, a grilagem de terras, a caça ilegal e a destruição ambiental no sertão piauiense.
Além de arqueóloga, Niède foi uma construtora de instituições e políticas públicas. Criou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), em São Raimundo Nonato, que dirigiu até 2020, transformando a região em um polo internacional de pesquisa, preservação ambiental, educação e turismo científico. Sua atuação articulou ciência, desenvolvimento sustentável e justiça social, garantindo trabalho, renda e proteção, especialmente para mulheres da região.
Niède foi reconhecida internacionalmente por sua trajetória. Recebeu o título de Cavaleira da Ordem Nacional do Mérito, do governo francês, e, em 2010, a Medalha Comemorativa dos 60 anos da UNESCO. Em 2024, foi agraciada com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, o mais importante reconhecimento científico do Brasil. Também foi homenageada por sua atuação em defesa do meio ambiente e da sustentabilidade, temas que atravessaram toda a sua vida.
Ao se afastar da direção da FUMDHAM, declarou com serenidade: “Com 90 anos, penso que já trabalhei bastante.” Ainda assim, manteve-se vigilante quanto às ameaças ao patrimônio arqueológico e ambiental da Serra da Capivara. Denunciou a redução de espécies, a caça ilegal e o abandono institucional, alertando para a urgência de políticas públicas contínuas e financiamento adequado para a preservação do parque.
Niède Guidon faleceu em 4 de junho de 2025, aos 92 anos. Sua morte mobilizou a comunidade científica, ambientalistas, movimentos sociais e gerações de pesquisadoras e pesquisadores que reconheceram nela uma arqueóloga da humanidade — alguém que escavou não apenas vestígios materiais, mas as bases coloniais do conhecimento histórico.
Seu legado ultrapassa a arqueologia. Niède reescreveu a história da presença humana nas Américas, defendeu a ciência como bem público, afirmou o protagonismo das mulheres na produção do conhecimento e mostrou que preservar a memória é um ato político. A Serra da Capivara permanece como testemunho vivo de sua obstinação, coragem e compromisso com o futuro.
Texto adaptado do verbete do Dicionário Mulheres do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher
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REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade, biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Sites:
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