Parteira, rezadeira e Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas.
Anézia Maria da Conceição nasceu em 5 de maio de 1902, no povoado Apolônia, município de Satuba, em Alagoas. Tornou-se uma das mais respeitadas parteiras e rezadeiras do estado, sendo reconhecida em vida como Patrimônio Vivo de Alagoas, título concedido em 3 de agosto de 2011 em reconhecimento à importância de seus saberes tradicionais.
Seu caminho como parteira começou muito cedo. Aos 15 anos, diante de uma emergência, ajudou uma mulher em trabalho de parto quando não havia tempo de chamar uma parteira experiente. Quando o marido da gestante chegou em casa, o bebê já havia nascido e estava limpo e seguro nos braços da mãe. A experiência marcou profundamente a jovem Anézia, que decidiu dedicar a vida a ajudar mulheres a trazer seus filhos ao mundo.
Ao longo de cerca de sessenta anos de atuação, acompanhou inúmeros nascimentos em comunidades da região, exercendo o ofício com profundo senso de responsabilidade, solidariedade e conhecimento prático transmitido pela tradição. Aposentou-se apenas aos 80 anos, deixando uma trajetória marcada pelo cuidado e pelo respeito à vida.
Os saberes de cura e espiritualidade vieram da família. O ofício de rezadeira foi aprendido com seu pai, conhecido como Bené, em Santa Rosa, na Usina Utinga, também em Alagoas. A tradição de cura fazia parte da linhagem familiar: sua mãe e sua avó também eram curandeiras e parteiras. Como recorda sua neta Tota, essas práticas eram parte de uma herança ancestral: “Antigamente éramos vistas como bruxas, mas nascemos com esse dom de rezar, de curar. Tudo acontece através da fé.”
Durante cerca de noventa anos, Dona Anézia exerceu também o trabalho de benzedeira, realizando rezas contra quebranto, mau-olhado, ventre caído e outros males. Em muitas ocasiões, atendia pessoas mesmo quando já estava muito idosa e com a saúde fragilizada, movida pelo compromisso espiritual com a comunidade.
Sua dedicação impressionava aqueles que a conheciam. Pedro Soares, ex-secretário de Cultura de Santa Luzia do Norte e amigo da família, relatou em entrevista que as curas realizadas por Dona Anézia pareciam carregar um profundo sentido espiritual. Segundo ele, muitas vezes era como se ela absorvesse parte do sofrimento das pessoas que buscavam ajuda. Em sua própria família, dizia, qualquer enfermidade encontrava solução nas rezas e nos cuidados da parteira.
Dona Anézia atuava gratuitamente, reforçando o caráter solidário de sua missão. Para muitos moradores da região, ela ajudou a trazer ao mundo quase toda uma geração de crianças.
Além do trabalho comunitário, construiu também uma extensa família. Teve cinco filhos, que lhe deram 30 netos, 59 bisnetos e 22 tataranetos até o momento de sua morte, aos 112 anos.
Sua trajetória foi celebrada em diferentes homenagens públicas. O escritor e poeta Pedro Soares registrou sua história no livro Nossa Terra, Nossa Gente, lançado em 2013, no qual a descreve como uma das grandes filhas ilustres de Santa Luzia do Norte.
Em 2021, a memória de Dona Anézia foi novamente celebrada quando a prefeitura de Santa Luzia do Norte sancionou a Lei nº 652/2021, que passou a denominar o Centro de Referência de Assistência Social do município como CRAS Maria Anézia da Conceição “Dona Anézia”, localizado no bairro Quilombo.
Dona Anézia faleceu em 29 de outubro de 2014, aos 112 anos. Sua partida teve repercussão nacional, e sua história permanece viva nas lembranças da comunidade, nas narrativas transmitidas entre gerações e nas práticas de cura preservadas por seus descendentes, como sua neta Tota.
Mais do que uma parteira ou benzedeira, Dona Anézia representou a força dos saberes tradicionais, transmitidos pela ancestralidade e sustentados pela fé, pela solidariedade e pelo compromisso com a vida.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #comunismo #classismo #feminismo #lutadeclasse #literatura #jornalismo #mulheres #trabalhadoras
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade, biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.
- Sites:
Alagoas perde Dona Anézia, um dos Registros do Patrimônio Vivo. Tribuna do Sertão, 29 de outubro de 2014. Disponível em: Alagoas perde Dona Anézia, um dos Registros do Patrimônio Vivo. Acesso em 1º de janeiro de 2026.
CÓLEN, Roberta. Morre aos 112 anos a parteira Anézia da Conceição, Patrimônio Vivo de AL. Maceió: G1, 29 de outubro de 2014. Disponível em: G1 – Morre aos 112 anos a parteira Anézia da Conceição, Patrimônio Vivo de AL – notícias em Alagoas. Acesso em 1º de janeiro de 2026.
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Dona Anézia Maria da Conceição: O legado da Mestra parteira e benzedeira mais antiga de Alagoas. Aqui Acolá Arte. Disponível em: Dona Anézia Maria da Conceição: O legado da Mestra parteira e benzedeira mais antiga de Alagoas – Aqui Acolá Arte. Acesso em 1º de janeiro de 2026.
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Morre aos 112 anos parteira Anézia Maria da Conceição. GloboPlay. Disponível em: Assistir AL TV 1ª Edição – Morre aos 112 anos parteira Anézia Maria da Conceição online | Globoplay. Acesso em 1º de janeiro de 2026.
Relação dos Mestres falecidos. SECULT/AL – Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas. Disponível em: SECULT – Relação dos Mestres falecidos. Acesso em 1º de janeiro de 2026.