Matriarca centenária da família Veloso.
Claudionor Viana Teles Veloso, conhecida por todos como Dona Canô, nasceu em 16 de setembro de 1907, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Tornou-se uma das figuras mais queridas e respeitadas da cidade, sendo reconhecida como a grande matriarca da família Veloso e uma referência afetiva e cultural para gerações de santamarenses.
Foi casada por mais de cinquenta anos com José Teles Veloso, conhecido como Seu Zezinho ou Seu Zeca, funcionário público dos Correios. Da união nasceram oito filhos — incluindo dois de criação — entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia, que se tornariam duas das maiores vozes da música popular brasileira. Seu Zezinho faleceu em 1983, aos 82 anos, após 53 anos de casamento.
Dona Canô tornou-se uma figura simbólica da vida cultural baiana, muitas vezes celebrada na música e na arte. Seu filho Caetano Veloso a homenageou na canção “Reconvexo”, na qual exalta riquezas culturais e humanas do Brasil, entre elas a própria mãe, apresentada como uma das grandes forças afetivas de sua vida. Ao longo dos anos, inúmeros registros na imprensa e na televisão eternizaram momentos em que Dona Canô cantava ou celebrava a música ao lado dos filhos.
Muito antes da fama nacional de seus filhos, Dona Canô já era conhecida em Santo Amaro por sua generosidade, hospitalidade e senso de comunidade. Sua casa tornou-se um ponto de encontro constante para moradores da cidade, visitantes, artistas e turistas, todos recebidos com simplicidade e acolhimento.
Presença marcante nas festas populares do Recôncavo Baiano, participava ativamente de celebrações tradicionais como a Festa de Reis, o Bembé do Mercado, o 2 de Julho e as festas dos Caboclos, reafirmando a força das tradições culturais da região.
Seu prestígio extrapolava os círculos culturais e alcançava também a vida política local. Durante décadas, políticos, empresários e lideranças comunitárias buscavam seus conselhos e sua bênção. Prefeitos e autoridades frequentemente a procuravam para ouvir sua opinião sobre os rumos da cidade. Dona Canô mantinha, por exemplo, uma amizade conhecida com o senador Antônio Carlos Magalhães, figura central da política baiana por muitos anos.
Essa rede de relações também contribuiu para melhorias na cidade de Santo Amaro, como reformas em espaços públicos e iniciativas culturais. Ainda assim, Dona Canô mantinha uma postura de grande humildade. Costumava dizer: “Se hoje me reconhecem é por causa dos meus filhos. Eu não sou nada.” Quem convivia com ela, porém, sabia que sua liderança afetiva e moral existia muito antes da projeção nacional de Caetano e Bethânia.
A influência de Dona Canô também se manifestava na esfera política nacional. Amiga do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chegou a telefonar para parabenizá-lo durante a campanha presidencial de 2002. Em outra ocasião, demonstrando seu senso de justiça e franqueza, defendeu publicamente Lula após uma declaração polêmica de Caetano Veloso, reafirmando o respeito e o carinho que nutria pelo presidente. Lula, por sua vez, telefonou para tranquilizá-la, reafirmando a admiração que tinha por ela.
Mesmo em idade avançada, Dona Canô continuava sendo uma presença luminosa em Santo Amaro. Em 2009, já com 103 anos, recebeu Lula em sua casa após se recuperar de uma internação, mantendo o espírito acolhedor que sempre a caracterizou.
Profundamente sincrética em sua espiritualidade, Dona Canô transitava com naturalidade entre o catolicismo e as tradições afro-brasileiras. Durante muitos anos liderou a Novena de Nossa Senhora da Purificação, tradição religiosa com mais de três séculos na cidade. Ao mesmo tempo, participava das manifestações do candomblé, inclusive da tradicional lavagem das escadarias da Igreja da Purificação, conduzindo as baianas na celebração.
Em 2012, ao completar 105 anos, celebrou a data com missa, almoço festivo e encontros musicais em Santo Amaro, reunindo familiares, amigos e admiradores. Em uma dessas celebrações, Caetano e Maria Bethânia cantaram juntos um ofertório composto especialmente para homenageá-la. Emocionada, Dona Canô declarou: “Esse é o melhor presente que poderia ter recebido. É um presente eterno.”
Dona Canô faleceu em 25 de dezembro de 2012, aos 105 anos, após passar o Natal ao lado da família. Sua morte mobilizou manifestações de carinho em todo o país. O velório e a missa de corpo presente foram realizados na Matriz da Purificação, em Santo Amaro, reunindo familiares, autoridades, artistas e moradores da cidade que vieram se despedir da matriarca.
Entre as muitas homenagens, lideranças religiosas, culturais e políticas lembraram sua generosidade, sua sabedoria e sua presença marcante na vida do Recôncavo Baiano. A ialorixá Mãe Carmen do Gantois, amiga da família, esteve presente junto aos parentes nos momentos finais, oferecendo conforto espiritual.
Ao longo da vida, Dona Canô tornou-se muito mais do que a mãe de artistas famosos. Foi símbolo de hospitalidade, de fé e de sabedoria popular, uma mulher cuja presença marcou profundamente a vida cultural de Santo Amaro e do Brasil.
Como escreveu Caetano Veloso anos depois, recordando a mãe:
“Ela viveu muito bem até os seus 105 anos. Nossa mãe permanece em nós, seus filhos, em toda a família e nos muitos que se banharam em sua luz.”
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
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REFERÊNCIAS:
- Sites:
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BÁRON, Francho. A morte de Dona Canô, matriarca do tropicalismo. Notícias UOL, El País, 19 de dezembro de 2012. Disponível em: A morte de Dona Canô, matriarca do tropicalismo – Notícias – Internacional. Acesso em 1º de janeiro de 2026.
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