Primeira mulher negra doutora em Matemática do Brasil e professora do Instituto de Matemática e Estatística da UFBA
Eliza Maria Ferreira Veras da Silva nasceu em 4 de fevereiro de 1944, em Ituberá, no sul da Bahia. Filha de um casamento interracial — mãe branca, dona de casa, e pai negro, funcionário da Receita. Viveu uma infância inicialmente estável, interrompida de forma abrupta quando tinha apenas três anos, com o desaparecimento do pai. A partir daí, sua mãe passou a sustentar sozinha a família, recorrendo ao trabalho artesanal com bordados e ao apoio de parentes.
Desde muito cedo, Eliza demonstrou profundo interesse pelos estudos. Ainda criança, frequentou o Jardim de Infância e, ao longo da infância, acompanhou sucessivas mudanças da família dentro do interior baiano, até se estabelecerem em Jequié, onde viveu com a avó. Foi nesse período que consolidou sua formação escolar e afetiva, marcada por lembranças felizes, mas também por uma consciência precoce das desigualdades sociais e raciais.
A educação sempre foi prioridade absoluta para sua mãe. Em Jequié, Eliza preparou-se para o exame de admissão da escola mais prestigiada da cidade, frequentada majoritariamente por filhas da elite local. Foi aprovada em primeiro lugar, com média 9,4. O episódio, no entanto, veio acompanhado de um choque racial que a marcaria por toda a vida: ao ouvir comentários de algumas mães, numa praça pública: Ah, saiu o resultado da admissão da Escola Normal, quem passou em 1º lugar foi uma ‘neguinha aí’. Eliza compreendeu, ainda adolescente, que excelência intelectual não a protegeria do racismo — mas também não a faria recuar.
Concluído o ginásio, permaneceu na mesma instituição para cursar a Escola Normal. Como a bolsa era parcial, passou a complementar a renda familiar dando aulas particulares. Seu desempenho acadêmico impecável — notas máximas em todas as disciplinas — lhe garantiu uma Bolsa Phillips, da Holanda. Ao contrário do destino socialmente esperado para mulheres formadas no magistério, Eliza decidiu seguir outro caminho: mudar-se para Salvador e ingressar na universidade.
Em 1964, já trabalhando como professora e vivendo com apoio de familiares, foi aprovada em segundo lugar no vestibular de Matemática da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Formou-se em 1967, obtendo simultaneamente os títulos de Licenciatura e Bacharelado, sempre conciliando estudo e trabalho. No ano seguinte, ingressou como docente no Instituto de Matemática e Estatística da UFBA, inicialmente como Auxiliar de Ensino, a convite de colegas.
Seu percurso acadêmico ganhou dimensão internacional quando recebeu uma bolsa financiada pela UNESCO para realizar o mestrado na França. Concluiu, em 1973, na Universidade de Montpellier, a dissertação Matrizes de permutação e leis de casamento nas sociedades primitivas. De volta ao Brasil, manteve intenso intercâmbio acadêmico com pesquisadores franceses, o que resultou em nova bolsa, desta vez para o doutorado. Em 1977, Eliza defendeu a tese Álgebras não associativas, tornando-se a primeira mulher negra doutora em Matemática do Brasil.
O feito teve impacto histórico. Em um campo dominado por homens brancos, Eliza construiu uma carreira sólida e respeitada. Foi aprovada em concurso público como Professora Adjunta do IME-UFBA, atuou na graduação e na pós-graduação, orientou pesquisas, integrou colegiados e exerceu a vice direção do Instituto entre 1984 e 1988.
Apesar do reconhecimento acadêmico, nunca silenciou sobre as barreiras impostas pelo racismo e pelo sexismo. Em entrevistas, afirmava com clareza que o estigma racial atravessou toda a sua trajetória e que o conhecimento foi sua principal estratégia de enfrentamento: algo que ninguém poderia lhe retirar.
Aposentou-se em 1994, passando a dedicar-se a atividades manuais, ao cuidado da mãe até seu falecimento, em 1999, e a viagens pelo litoral baiano, especialmente ao Morro de São Paulo, lugar que lhe era afetivamente caro desde a infância.
Seu legado começou a ser institucionalmente reconhecido ainda em vida. Em 2022, a UFBA criou o Programa de Apoio a Projetos e Iniciação Científica em Matemática Professora Dra. Eliza Maria Ferreira Veras da Silva, voltado ao incentivo à formação de estudantes negras e negros. Em 2023, sua trajetória foi destacada em artigo do diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, que a definiu como uma verdadeira pioneira da matemática brasileira.
Eliza Maria Ferreira Veras da Silva faleceu em 31 de maio de 2025, aos 81 anos, em Salvador, em decorrência de complicações de saúde associadas à idade. Sua morte foi amplamente lamentada por instituições acadêmicas e científicas do país.
Sua vida demonstra, de forma incontornável, que ocupar a matemática sendo mulher e negra é um ato político. A memória de Eliza pertence não apenas à história da ciência brasileira, mas às lutas por igualdade racial, justiça social e democratização do conhecimento.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher
Palavras-Chave/TAG: #racismo #classismo #antirracismo #lutadeclasse #educacao #pedagogia #matematica #doutorado #mulheresnegras #educacao #pioneira
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
FAUSTINO, Gustavo Augusto Assis. Eliza Maria Ferreira Veras da Silva. Revista da ABPN, v. 12, n. 33, pp. 684 a 687, julho a Agosto de 2020. Disponível em: ELIZA MARIA FERREIRA VERAS DA SILVA | Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN). Acesso em 7 set 2025.
MENEZES, Mária Barbosa. Eliza: trajetória e estratégias de sobrevivência de uma outsider/within na Matemática. Rio Claro: Bolema – Boletim de Educação Matemática. Disponível em: SciELO Brasil – Eliza: trajetória e estratégias de sobrevivência de uma outsider/within na Matemática Eliza: trajetória e estratégias de sobrevivência de uma outsider/within na Matemática. Acesso em 7 set 2025.
- Sites:
CONCEIÇÃO, Luan. A professora baiana Eliza Maria é a primeira matemática negra doutora do Brasil. Negrê, 16 de julho de 2025. Disponível em: A professora baiana Eliza Maria é a primeira matemática negra doutora do Brasil – Negrê. Acesso em 7 set 2025.
HORA, Nina da. Primeira matemática negra brasileira. Futura, 28 de novembro de 2022. Disponível em: Primeira matemática negra brasileira: artigo de Nina Da Hora. Acesso em 7 set 2025.
Morre Eliza Maria Ferreira, professora aposentada da UFBA. Impa – Instituto de Matemática Pura e Aplicada, 2 de junho de 2025. Disponível em: Morre Eliza Maria Ferreira, professora aposentada da UFBA – IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Acesso em 7 set 2025.