Emilson Gomes Junior
O feminicídio não é um problema das mulheres. É um problema dos homens. São homens que matam mulheres e, portanto, os homens precisam assumir um papel ativo na transformação dessa realidade.
Escrevo esta reflexão a partir de duas experiências que se cruzam. A primeira é a de ser um homem adulto que, como tantos outros, foi educado em uma sociedade marcada pelo machismo e precisa revisitar continuamente suas próprias atitudes, crenças e formas de se relacionar. A segunda é o trabalho realizado junto ao Sistema Nacional sobre Feminicídios, iniciativa da REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano que reúne e analisa dados sobre a violência letal contra mulheres no Brasil.
Os números mais recentes são alarmantes. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Do total, 66,3% dos crimes ocorreram dentro de casa. Nota-se que em 48,7% dos casos foram utilizados objetos do cotidiano, como facas ou machados, para consumar o crime. Também precisamos dizer com todas as letras: o feminicídio no Brasil tem cor, classe e território. A maioria das vítimas são mulheres negras. Muitas vivem em territórios periféricos. Por trás de cada número existe uma vida interrompida, uma família devastada e uma comunidade marcada pela violência.
Muitas mulheres já haviam denunciado a violência antes de serem assassinadas. Isso demostra, como as feministas vêm denunciando, que o feminicídio não é um fato isolado. Ele é a expressão extrema de uma estrutura histórica e cotidiana de desigualdade e controle sobre a vida das mulheres.
Diante dessa trágica realidade, uma pergunta se impõe: o que nós, homens, precisamos fazer para protagonizar a interrupção desse ciclo?
A resposta passa por reconhecermos que o feminicídio não acontece de um dia para o outro. Antes dele, existiu uma trajetória marcada por relações desiguais, comportamentos possessivos, ciúmes tratados como demonstração de amor e dificuldades de lidar com rejeições e conflitos de forma respeitosa.
Enfrentar o feminicídio exige muito mais do que punir os agressores. Exige reconhecermos que vivemos em uma sociedade estruturada pela desigualdade de gênero, que naturaliza a superioridade dos homens e legitima o controle sobre as mulheres. Desde cedo, meninos são educados a acreditar que têm direito de dominar, enquanto meninas são ensinadas a se submeter. Essa lógica cria terreno fértil para a violência. Romper com ela significa identificar os sinais, interromper ciclos de agressão e investir na educação de meninos e homens para que aprendam a conviver sem recorrer ao poder e à violência. Combater o feminicídio é, sobretudo, prevenir a violência antes que ela aconteça, desafiando a cultura que sustenta a ideia de que homens têm direito sobre o corpo e a existência das mulheres.
Cabe a nós homens assumirmos nosso papel nesse processo: reconhecermos privilégios, questionarmos a cultura que outorga superioridade e desconstruirmos a ideia de controle sobre as mulheres. Devemos aprender a compartilhar decisões, a respeitar a autonomia feminina e a construir relações baseadas na igualdade. Mais do que não praticar violência, é necessário e urgente sermos agentes ativos na desconstrução do machismo, educando filhos pelo exemplo, apoiando políticas de igualdade e nos posicionando contra atitudes e discursos que reforçam a dominação masculina.
Nesse sentido, a educação tem um papel fundamental. É necessário que a educação formal nas escolas ensine desde cedo que meninas e mulheres merecem respeito, autonomia e igualdade. Que o poder deve ser compartilhado e não exercido pela vontade dos homens. É preciso formar crianças capazes de resolver conflitos sem violência, de conviver com diferenças e de construir relações baseadas no diálogo. Essa é uma responsabilidade do Estado, das famílias, das escolas, das comunidades e também dos homens. Somente assim seremos agentes para da transformação da cultura que sustenta o feminicídio e prevenir a violência antes que ela aconteça.
Mas a prevenção não diz respeito apenas às novas gerações. Nós homens adultos também podemos aprender e mudar. Uma experiência importante nesse campo são os Grupos Reflexivos para Homens Autores de Violência. Previstos na Lei Maria da Penha, esses espaços promovem processos educativos que ajudam homens a compreender suas atitudes, assumir responsabilidades e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com conflitos e relacionamentos.
Relatos de participantes desses grupos mostram transformações significativas. Muitos homens chegam acreditando que não têm nada a aprender e que nem mesmo praticaram alguma violência. Com o tempo, descobrem novas formas de dialogar, de lidar com emoções e de construir relações mais respeitosas: mudar é possível!
Talvez por isso seja tão necessário ampliar espaços de reflexão sobre masculinidades para além do sistema de justiça. Iniciativas comunitárias, grupos de conversa, processos terapêuticos e projetos como o Papo de Baile do Mais Um mostram que homens podem construir coletivamente novas referências de convivência, respeito e responsabilidade.
Essa transformação também passa pela forma como os homens se relacionam com as crianças. O Brasil ainda convive com índices elevados de ausência paterna, e sabemos que a presença de um pai vai muito além do registro civil. Ser uma referência masculina positiva significa participar da educação dos filhos e filhas, compartilhar cuidados, demonstrar afeto, ensinar respeito às mulheres e assumir responsabilidades cotidianas.
As crianças aprendem observando. Aprendem com aquilo que dizemos, mas sobretudo com aquilo que fazemos. Quando um menino vê um homem tratar mulheres com respeito, dividir tarefas domésticas, dialogar diante dos conflitos e exercer uma paternidade responsável, ele aprende que existem formas de ser homem diferentes daquelas baseadas na violência e na dominação.
Também é papel nosso – dos homens – agir no presente. Isso significa não naturalizar piadas machistas, não nos silenciarmos diante da violência, apoiar mulheres em situação de risco e compartilhar informações sobre serviços de proteção e acolhimento disponíveis em nossas comunidades.
Nenhum homem, individualmente, será responsável por acabar com o feminicídio. Mas cada homem pode escolher se fará parte do problema ou da solução.
Como homem, penso que essa escolha começa por um exercício permanente de reflexão e responsabilidade. Não se trata de buscar perfeição, mas de reconhecer que sempre podemos aprender mais, ouvir mais e agir melhor.
O enfrentamento ao feminicídio depende de leis, políticas públicas, serviços especializados e investimentos do Estado. Mas depende também das escolhas cotidianas que fazemos em casa, no trabalho, nas amizades e nas formas como educamos as próximas gerações.
Se são os homens que matam mulheres, é também entre os homens que parte fundamental da mudança precisa acontecer.
Palavras-Chave/TAG: #masculinidade #feminicidio #paternidade #cultura #mulheres
REFERÊNCIAS:
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