• Hildézia Medeiros (1940 – 2024)

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Professora, sindicalista e militante feminista antirracista.

Hildézia Medeiros nasceu em 19 de agosto de 1940, em Salgueiro, no interior de Pernambuco. Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades, após receber convite da Igreja Batista para dirigir uma revista voltada ao público jovem. Nesse período também participou de cursos de formação religiosa e atuou em atividades de coordenação ligadas à instituição.

Na década de 1970, porém, decidiu afastar-se da vida religiosa para se engajar na militância política em defesa da redemocratização do país. Antes de ingressar no serviço público, trabalhou com publicidade e participou do projeto Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização, iniciativa nacional voltada à educação de jovens e adultos. Seu posicionamento crítico e progressista acabou levando ao seu desligamento do programa, por não concordar com o viés conservador adotado pela iniciativa.

Posteriormente tornou-se servidora pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando como professora na Escola Tiradentes, em Cachoeiras de Macacu, e mais tarde na Secretaria Estadual de Educação.

Em 1977 ingressou no curso de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde aprofundou sua formação política e participou do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP). A partir dessa experiência e de sua vivência como professora da rede pública, surgiu o impulso para organizar o movimento do magistério fluminense.

Naquele período, servidores públicos não tinham direito à sindicalização. Ainda assim, Hildézia participou da fundação do SEP – Sindicato Estadual dos Professores, articulando formas de organização coletiva para fortalecer a luta dos profissionais da educação contra as opressões da ditadura militar.

Posteriormente, o SEP se unificou à UPERJ – União de Professores do Rio de Janeiro e à APERJ – Associação dos Professores do Estado do Rio de Janeiro, dando origem ao CEP – Centro de Professores do Rio de Janeiro, organização que se tornou referência na mobilização dos educadores fluminenses. Dessa trajetória nasceu também o SEPE-RJ, entidade sindical que marcou profundamente a história do movimento docente no estado.

A mobilização protagonizada por essas organizações resultou em importantes conquistas para a categoria, entre elas a instituição de um piso salarial equivalente a cinco salários mínimos, obtido após uma greve histórica que mobilizou amplos setores da educação. A luta conduzida por Hildézia e suas companheiras e companheiros também inspirou outras categorias de trabalhadores a reivindicar melhores condições de trabalho e vida.

Além de sua atuação sindical, Hildézia destacou-se como precursora dos debates feministas no movimento docente. Entre 1984 e 1988 participou da organização de cursos e debates no SEPE-RJ sobre temas como gênero, corpo e sexualidade — iniciativas consideradas ousadas para a época e que enfrentaram resistências dentro do próprio movimento sindical.

Em 1987 participou da fundação do CACES – Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais, organização voltada à preservação da memória dos movimentos sociais e à promoção da igualdade de gênero e raça. A entidade desenvolveu ao longo dos anos ações de formação política, produção de materiais educativos e assessoria a grupos socialmente marginalizados.

Hildézia também esteve presente em importantes articulações feministas nacionais e internacionais. Foi uma das mobilizadoras do Planeta Fêmea, espaço de articulação do movimento feminista durante a Eco-92, no Rio de Janeiro. Em 1994 participou da fundação da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) rumo à IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Beijing, integrando nos primeiros anos a Secretaria Executiva da organização e contribuindo para mobilizar o movimento feminista brasileiro no processo preparatório para a conferência.

Durante o governo de Benedita da Silva no Estado do Rio de Janeiro, assumiu a Subsecretaria de Articulação Governamental, fortalecendo a interlocução entre governo e movimentos sociais.

Sua militância antirracista também teve destaque na preparação da III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul, em 2001. Hildézia participou de diferentes etapas de mobilização e incidência política, contribuindo para a construção da Declaração e Programa de Ação de Santiago, documento preparatório para a conferência.

Nesse contexto, integrou também a articulação Mídia e Racismo, iniciativa que reuniu organizações negras e aliadas para debater o papel dos meios de comunicação na reprodução ou no enfrentamento das desigualdades raciais. Em suas reflexões, Hildézia destacava a importância de compreender o impacto global dos sistemas de comunicação contemporâneos e seu papel na formação de valores sociais, defendendo que o combate ao racismo deveria incluir também a democratização da mídia.

Filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), Hildézia permaneceu ativa na militância política e social ao longo de toda a vida.

Faleceu em 7 de outubro de 2024, aos 84 anos. Sua trajetória foi lembrada com homenagens de diversas organizações, entre elas o SEPE-RJ, a Feteerj – Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, o SinproRio – Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região e o Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Em nota de pesar, o SEPE-RJ recordou sua presença marcante na história do sindicato e sua participação em importantes momentos da categoria, como a celebração dos 40 anos da histórica greve de 1979, em 2019.

Hildézia Medeiros deixa um legado profundo para o movimento docente, para o feminismo negro brasileiro. Sua trajetória reafirma a força das mulheres que, ao longo das últimas décadas, construíram pontes entre educação, justiça social, igualdade de gênero e combate ao racismo no Brasil.

Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

Palavras-Chave/TAG: #educação #professora # sindicalismo #classismo #feminismo #lutadeclasse #literatura #jornalismo #mulheres #trabalhadoras

REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

FARIA, Lia Ciomar Macedo de; MARTINS, Thaís Rodrigues. Encontros e percursos de professoras militantes: Hildézia de Medeiros e Dodora Mota. Curitiba: Revista Diálogo Educacional, vol. 20, nº 67, outubro a dezembro de 2020. Disponível em: Encontros e percursos de professoras militantes: Hildézia de Medeiros e Dodora Mota. Acesso em 26 dez 2025.

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.

  • Sites:

Aposentadas realizaram 41º Encontro e lançam a Carta de Teresópolis. Sepe RJ – Sepe RJ – Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro, Conselho de Classe, dezembro de 2018. Disponível em: boletim3341.pdf. Acesso em 26 dez 2025.

EGHRARI, Iradj. Nota de pesar: Hildézia Alves de Medeiros. Geledés – Instituto da Mulher Negra, 7 de outubro de 2024. Disponível em: Nota de pesar: Hildézia Alves de Medeiros – Geledés. Acesso em 26 dez 2025.

Nota de falecimento: Professora Hildézia Alves de Medeiros – ex-diretora e fundadora do Sepe RJ. Rio de Janeiro: Sepe RJ – Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2024. Disponível em: Nota de falecimento: Professora Hildézia Alves de Medeiros – ex-diretora e fundadora do Sepe RJ – Sepe. Acesso em 26 dez 2025.

Nota de Pesar: profª. Hildézia de Medeiros. Rio de Janeiro: SinproRio – Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região, 7 de outubro de 2024. Disponível em: Nota de Pesar: profª. Hildézia de Medeiros – Sinpro-Rio. Acesso em 26 dez 2025.

NOTA DE PESAR: PROFESSORA HILDÉZIA ALVES. Rio de Janeiro: Feteerj – Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino no Estado do Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2024. Disponível em: NOTA DE PESAR: PROFESSORA HILDÉZIA ALVES | FETEERJ. Acesso em 26 dez 2025.

portalgeledes. Instagram, 7 de outubro de 2024. Disponível em: (2) Instagram. Acesso em 26 dez 2025.

SEPE RJ – Oficial. Facebook, 7 de outubro de 2024. Disponível em: (7) A professora Hildézia Alves de Medeiros,… – SEPE RJ – Oficial | Facebook. Acesso em 26 dez 2025.

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