• Jacinta Passos (1914–1973)

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Militante comunista, pedagoga, professora de matemática, poeta e compositora

Jacinta Velloso Passos nasceu em 30 de novembro de 1914, em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencia a uma família tradicional e politicamente influente da região. Seu avô paterno, Temístocles da Rocha Passos, foi senador da Bahia por duas vezes, e seu pai exerceu mandato como deputado estadual — contexto que ajuda a compreender sua familiaridade precoce com a política institucional, ainda que Jacinta tenha seguido um caminho próprio, crítico e dissidente.

Ainda na infância, mudou-se para São Félix e, em 1926, passou a viver em Salvador (BA), onde ingressou no Curso Normal. Desde muito jovem, frequentou círculos literários e culturais, como a Ala das Letras e das Artes. Criada na tradição católica, essa espiritualidade marcou seus primeiros escritos, especialmente nos anos 1930. Professora de matemática por formação, conciliava o magistério com a escrita poética, prática que a acompanharia por toda a vida.

Entre as décadas de 1940 e 1950, Jacinta consolidou-se como uma das vozes poéticas mais expressivas de sua geração, publicando Momentos de Poesia (1941), Canção de Partida (1945), Poemas Políticos (1951) e A Coluna (1958). Sua obra foi reconhecida por intelectuais como Antônio Candido, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Roger Bastide. Parte significativa de seus poemas e canções denuncia a opressão vivida pelas mulheres e as violências estruturais do patriarcado, como observa Dalila Machado em A história esquecida de Jacinta Passos.

Em 1942, a convite de Jorge Amado, passou a colaborar com o jornal O Imparcial, escrevendo sobre política nacional e internacional, direitos das mulheres e o combate ao nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, aproximou-se do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e ampliou seu círculo de interlocução com intelectuais e militantes.

Em 1943, mudou-se para São Paulo com uma bolsa de estudos. Lá passou a viver com James Amado, irmão de Jorge Amado, com quem se casou no civil. O casal teve uma filha, Janaína. Em São Paulo, Jacinta intensificou sua militância política, estabelecendo relações com nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Oswald de Andrade, Caio Prado Júnior, José Mindlin e Antônio Candido, além de participar ativamente de manifestações em defesa da democracia.

Em 1944, Jacinta e James mudaram-se para Porto Alegre (RS), buscando maior tranquilidade, embora ela já estivesse formalmente filiada ao PCB. No ano seguinte, retornaram a Salvador a pedido do partido, com o objetivo de disputar as eleições de 2 de dezembro de 1945 para a Assembleia Nacional Constituinte. Jacinta foi a única mulher entre os 23 candidatos do PCB na Bahia. Nenhum deles se elegeu, com exceção de Carlos Marighella, em São Paulo.

Esse período teve impacto decisivo em sua produção literária. Canção de Partida, escrito entre 1941 e 1944 e publicado em 1945, reflete o enfrentamento à ditadura do Estado Novo, a clandestinidade dos militantes comunistas e o sufocamento imposto à liberdade de expressão.

Após as eleições, em razão da ilegalidade do PCB, Jacinta e sua família passaram cerca de três anos em uma fazenda no interior da Bahia. Em 1951, mudaram-se para o Rio de Janeiro, por influência do partido e de Jorge Amado, com o objetivo de retomar a vida intelectual e política urbana. Ainda naquele ano, Jacinta participou do IV Congresso Brasileiro de Escritores, em Porto Alegre — evento marcado por intensas disputas entre intelectuais comunistas e não comunistas, revelando o clima de tensão que atravessava o campo cultural da época.

Pouco depois, Jacinta apresentou sua primeira crise psíquica grave, marcada por episódios de intensa angústia e sensação de perseguição política. Foi internada no Rio de Janeiro e diagnosticada, à época, com esquizofrenia paranoide. Submetida a tratamentos hoje reconhecidos como violentos — eletrochoques, insulinoterapia e sedativos —, passou por sucessivas internações, que agravaram seu sofrimento.

Após período de tratamento em São Paulo, na Clínica Psiquiátrica Charcot, separou-se definitivamente de James Amado. Viveu por um tempo na casa da irmã, Dulce, e retomou brevemente a escrita, colaborando com a Editora Martins. No entanto, as recaídas foram recorrentes.

Em 1955, retornou a Salvador, passando a viver na casa dos pais, de forma isolada. Ainda assim, manteve vínculos com o PCB e colaborou com o jornal O Momento, chegando a organizar a página Literatura e Artes em 1956. Apesar de sua contribuição intelectual, enfrentou forte resistência em um ambiente majoritariamente masculino, marcado por machismo, etarismo e psicofobia, o que resultou no encerramento de sua colaboração.

Em 1962, Jacinta mudou-se definitivamente para Barra dos Coqueiros, em Sergipe. Durante o governo João Goulart, retomou intensa militância política, atuando junto ao PCB, escrevendo para o jornal Folha Popular e participando de ações com pescadores locais e movimentos estudantis. Atuava tanto de forma orgânica quanto independente, distribuindo textos, discursando em espaços públicos e organizando manifestações.

Após o golpe militar de 1964, foi presa em Aracaju e levada ao 28º Batalhão de Caçadores. Sua casa foi invadida e seus pertences, apreendidos. Durante os interrogatórios, respondeu com versos e reafirmou sua militância comunista. Um laudo psiquiátrico foi novamente utilizado para justificar sua internação definitiva.

Jacinta passou seus últimos anos institucionalizada. Faleceu em 28 de fevereiro de 1973, aos 57 anos, em Aracaju. Sua trajetória, como afirmou o historiador Luís Henrique Dias Tavares, “não pode ser dissociada da história da repressão no Brasil”.

Manter viva a memória de Jacinta Passos é reconhecer não apenas sua relevância literária, mas também o custo humano imposto às mulheres que ousaram enfrentar ditaduras, autoritarismos e estruturas patriarcais. Sua vida e obra seguem como testemunho de coragem, lucidez política e sensibilidade poética.

Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

AMADO, Janaína. Biografia de Jacinta Passos: canção da liberdade. In: Jacinta Passos, coração militante: obra completa: poesia e prosa, biografia, fortuna crítica. Salvador: Editora EDUFBA, pp. 336-442, 2010. Disponível em: MIOLO.pmd. Acesso em 29 dez 2024.

ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil. Rio de Janeiro: Intrínseca, 1ª edição, 11 de março de 2019. Disponível em: Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil | Amazon.com.br. Acesso em 29 dez 2024.

FREITAS, Viviane Ramos de; CUNHA, Rubens. “Eu não serei eu, eu serei nós”: a comunidade imaginada de Jacinta Passos. Araraquara: Itinerários, n° 52, p. 115-132, janeiro a junho de 2021. Disponível em: “EU NÃO SEREI EU, EU SEREI NÓS”: A COMUNIDADE IMAGINADA DE JACINTA PASSOS. | EBSCOhost. Acesso em 29 dez 2024.

GODOY, Larissa. ‘Holocausto Brasileiro’: Documentário chega à Netflix e mostra vida brutal no maior hospício do País. São Paulo: Estadão, 26 de fevereiro de 2024. Disponível em: ‘Holocausto Brasileiro’: Documentário chega à Netflix e mostra vida brutal no maior hospício do País – Estadão. Acesso em 29 dez 2024.

MACHADO, Dalila. A história esquecida de Jacinta Passos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Fundação Cultural do Estado, Empresa Gráfica da Bahia, 2000.

  • Sites

a poeta de sábado: 3 poemas de Jacinta Passos. A Capivara Instituto Cultural: 13 de abril de 2024. Disponível em: a poeta de sábado: 3 poemas de Jacinta Passos. Acesso em 29 dez 2024.

Dona Ivone Lara: enfermeira, a Rainha do Samba participou da luta antimanicomial. Rio de Janeiro: História Ciências Saúde Manguinhos, abril de 2018. Disponível em: Dona Ivone Lara: enfermeira, a Rainha do Samba participou da luta antimanicomial | História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Acesso em 29 dez 2024.

FENSKE, Elfi Kürten. Jacinta Passos – serei poesia. Templo Cultural Delfos: agosto de 2022. Disponível em: Jacinta Passos – serei poesia | Templo Cultural Delfos. Acesso em 29 dez 2024.

MACIEL, Sergio. Jacinta Passos (1914-1973). Escamandro, 2 de março de 2018. Disponível em: Jacinta Passos (1914-1973) – escamandro. Acesso em 29 dez 2024.

Você conhece Jacinta Passos? Assista agora na Mangue o documentário sobre essa importante escritora que morreu esquecida em um sanatório de Aracaju. Aracaju: Mangue Jornalismo, 11 de maio de 2023. Disponível em: Você conhece Jacinta Passos? Assista agora na Mangue o documentário sobre essa importante escritora que morreu esquecida em um sanatório de Aracaju – Mangue Jornalismo. Acesso em 29 dez 2024.

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