Professora, advogada, vereadora e prefeita de São Luís — primeira prefeita negra de uma capital brasileira.
Lia Rocha Varela, filha de Euzébio Fernandes Varela e Maria José Rocha Varela nasceu em São Luís do Maranhão, em 25 de abril de 1936, onde construiu toda a sua trajetória profissional e política. Filha daquela cidade, iniciou sua vida de trabalho muito cedo: aos 15 anos, em 1949, já atuava como professora alfabetizadora de jovens e adultos, revelando desde então um compromisso profundo com a educação.
Após concluir o ginásio, ingressou na Escola Normal do Instituto de Educação, formando-se professora normalista. Mas Lia não se contentou em um único caminho. Determinada a ampliar seus horizontes, prestou vestibular para a Faculdade de Direito do Maranhão, onde se formou em Ciências Jurídicas, tornando-se advogada em um período em que poucas mulheres, especialmente mulheres negras, alcançavam esse espaço.
Sua trajetória profissional foi marcada por múltiplas experiências: atuou como professora do SENAI, escriturária do Ministério da Marinha na Capitania dos Portos, analista judiciária da Justiça Federal do Maranhão e advogada ao longo das décadas de 1950 e 1960. Como analista, trabalhou ao lado de importantes nomes do Judiciário brasileiro, como Carlos Alberto Madeira, que viria a se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal, e Alberto Tavares Vieira da Silva, futuro presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
A entrada na política ocorreu em 1967, quando se candidatou a deputada estadual pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), ficando na suplência. Poucos anos depois, consolidaria sua trajetória política ao ser eleita vereadora de São Luís, assumindo o mandato em 1971. Lia permaneceria na Câmara Municipal por quatro mandatos consecutivos, até 1992, tornando-se uma das figuras mais longevas e influentes do legislativo ludovicense.
Ainda que não tenha sido a primeira vereadora da cidade, Lia Varela destacou-se por seu pioneirismo ao ocupar espaços de poder dentro do Legislativo. Em seu segundo mandato, tornou-se a primeira mulher negra a presidir a Câmara Municipal de São Luís, cargo que voltaria a ocupar outras duas vezes ao longo de sua trajetória. Em 1979, ampliando sua atuação política, presidiu também a União dos Vereadores do Brasil.
Foi justamente a partir de sua posição na presidência da Câmara que alcançou um marco histórico: diante da vacância no cargo de prefeito, assumiu interinamente a Prefeitura de São Luís por 30 dias, entre 14 de agosto e 15 de setembro de 1978. Tornou-se, assim, a primeira prefeita negra de uma capital brasileira, possivelmente a primeira prefeita negra do país. No ano seguinte, voltou a assumir interinamente a prefeitura, entre 14 e 22 de março de 1979.
Sua atuação política teve forte ênfase na educação e nas condições de vida da população mais vulnerável. Entre suas iniciativas destacam-se a ampliação da merenda escolar para estudantes do Mobral, a construção de escolas de ensino fundamental em bairros periféricos como Coroado, Coroadinho e Redenção, e a valorização do magistério municipal, com a luta pelo aumento do salário-aula dos professores — uma demanda histórica da categoria.
Mesmo com uma trajetória marcada por conquistas, Lia enfrentou também derrotas eleitorais. Não conseguiu se reeleger em 1993, pelo PPB, e voltou a disputar eleições em 2007, pelo PSDB, sem êxito. Ainda assim, sua presença na política já havia deixado marcas profundas e duradouras.
Lia Rocha Varela faleceu em 24 de julho de 2010, deixando um legado que continua a ser reconhecido e celebrado. Sua memória segue viva não apenas nos registros históricos, mas também nas homenagens que perpetuam seu nome e sua contribuição.
Ainda em vida, foi homenageada com a criação da Escola Lia Varela, surgida a partir da mobilização popular após um trágico naufrágio envolvendo crianças da região de São Francisco, antes da construção da ponte que liga o bairro ao centro de São Luís. Lia teve papel fundamental no apoio à construção da escola, ao lado de seu idealizador, Bento Barros. Embora a instituição não exista mais, sua importância permanece na memória das comunidades que por ela passaram.
Outras homenagens incluem a Clínica Lia Varela, em funcionamento na cidade, e a proposta de criação da Medalha Lia Rocha Varela de Mérito Jurídico, destinada a reconhecer contribuições relevantes à justiça e à democracia. Sua trajetória também tem sido revisitada em reportagens, documentários e produções recentes, como a série de podcasts Nós, Prefeitas, que a reconhece como precursora entre as mulheres negras no poder executivo municipal.
Sua trajetória na educação, no Direito e na política marcou a história de São Luís, abrindo caminhos em um país historicamente marcado pela exclusão racial e de gênero. Sua história não é apenas de pioneirismo, mas de permanência, resistência e construção de futuro.
Texto adaptado do Livro Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
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REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
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SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.
- Sites:
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CARDOSO, Luís. Falece Lia Varela. Luís Cardoso – Bastidores da Política, 24 de julho de 2010. Disponível em: Falece Lia Varela | Luís Cardoso – Bastidores da Notícia. Acesso em 26 dez 2025.
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