Carnavalesca e liderança do associativismo negro; uma das principais “tias-madrinhas” do samba paulistano
Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, foi uma das grandes referências da cultura popular e do associativismo negro em São Paulo. Nasceu em Piracicaba (SP), em 14 de outubro de 1909, filha de Sebastiana Franca do Amaral, lavadeira, e Mathias Madre, pedreiro. Ainda criança, mudou-se para a capital paulista e cresceu no Glicério, região central marcada pela presença negra no pós-abolição.
Foi nesse território que Eunice entrou em contato com o samba e com as formas de sociabilidade negra: festas de Santa Cruz, celebrações do 13 de maio, rodas diante da Igreja dos Remédios e encontros que estruturavam redes de solidariedade, memória e pertencimento. Já adolescente, aproximou-se de diferentes expressões afro-brasileiras, como samba de roda, samba de umbigada e samba de tambu — vivências que ajudariam a moldar sua atuação como liderança cultural.
Em 1937, ao lado do marido Chico Pinga e do irmão Zé da Caixa, fundou a Escola de Samba Lavapés, considerada a mais antiga em atividade em São Paulo. Eunice presidiu a agremiação por décadas, tornando-se uma das mais importantes “tias-madrinhas” do samba paulistano. Sob sua condução, a Lavapés destacou-se pela batucada, pelas fantasias e, sobretudo, pela identidade profundamente vinculada à população negra do centro.
Sua liderança era também trabalho cotidiano: organizava festas e ensaios, cuidava de cada detalhe e, muitas vezes, sustentava a escola com recursos próprios, obtidos na banca de frutas na Praça Clóvis Bevilácqua. A Lavapés, para Eunice, era mais do que carnaval: era rede, família e política cultural.
Em 1942, Eunice fundou também o Lavapés Futebol Clube, enfrentando o machismo do futebol amador. Como presidente, organizava amistosos, costurava uniformes, lavava o fardamento e zelava pela disciplina do time. Sua atuação mostra como mulheres negras construíram, mesmo em espaços hostis, autoridade moral, organização comunitária e práticas de cuidado que atravessaram gerações.
Eunice articulava samba e religiosidade sem separar uma coisa da outra. Participava das festas católicas oficiais, mas mantinha em casa um espaço de culto na Quimbanda, onde assentou o Exu Veludo, protetor da família e da escola. Os tambores eram consagrados e a bateria ficou conhecida como “batucada de veludo” — expressão que sintetiza a dimensão espiritual e ancestral do samba paulista, muitas vezes invisibilizada pela intolerância religiosa e pelo racismo.
Outro espaço fundamental de sociabilidade eram as festas de Pirapora do Bom Jesus, onde famílias negras de todo o estado se encontravam nos barracões de samba. Esses encontros sustentaram a transmissão oral de repertórios, ritmos e valores comunitários que moldaram o samba paulista e formaram lideranças como Geraldo Filme, Nenê de Vila Matilde, Carlão do Peruche e a própria Eunice — reconhecida como guardiã da memória das tias-madrinhas.
A história da Lavapés também atravessou tensões do carnaval paulistano. No carnaval do IV Centenário de São Paulo (1954), Eunice se incomodou com o cachê superior pago à Portela, evidenciando a valorização crescente do carnaval carioca em detrimento das tradições locais.
Do ponto de vista organizativo, Eunice integrou o grupo de lideranças conhecido como “cardeais do samba”, que negociava com autoridades e buscava apoio junto a radialistas e mediadores de patrocínio. Em 1967, conseguiu um marco: a cessão de uma quadra de 2.600 m² pelo INPS, na Rua Barão de Iguape, oficializando a sede da Lavapés. Porém, em 1970, a escola foi abalada pelo assassinato de Wilson Marcondes (Teixeirinha), genro de Eunice e vice-presidente da agremiação. O impacto foi profundo: afastou componentes e fragilizou a imagem da escola. Depois, a perda da quadra — retomada pelo INPS — agravou o declínio, e a Lavapés voltou a ensaiar em locais improvisados, muitas vezes funcionando na própria casa de Eunice.
A trajetória de Eunice dialoga diretamente com a história da Liberdade e seu entorno — território frequentemente narrado apenas como “bairro japonês”, apesar de carregar marcas históricas de violência e resistência negra: o antigo Largo da Forca, os enforcamentos públicos e o Cemitério dos Aflitos, destinado a indigentes e africanos escravizados. O processo de higienização e gentrificação apagou parte dessa memória. Por isso, recordar Madrinha Eunice é também disputar narrativas: reafirmar que ali há uma história negra viva, não um detalhe do passado.
Mesmo sem filhos biológicos, Eunice formou uma família extensa em torno da Lavapés: acolheu dezenas de crianças adotivas e afilhadas, deixando inúmeros netos e bisnetos simbólicos. Seu percurso revela como o samba foi — e segue sendo — espaço de resistência cultural, sociabilidade negra e afirmação política no centro de São Paulo.
Madrinha Eunice faleceu em 1995, vítima de complicações de saúde associadas à diabetes e a um AVC. Sua memória permanece como a da grande tia-madrinha do samba paulistano. Em sua homenagem, foi inaugurada uma estátua na Liberdade e a Fábrica do Samba passou a levar seu nome, reconhecendo publicamente sua contribuição inestimável à cultura paulista e brasileira. Em outubro de 2024, a Liga-SP homenageou seus 115 anos, reafirmando a permanência de seu legado no carnaval da cidade.
Texto Inspirado no verbete contido no Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #racismo #classismo #antirracismo #carnaval #samba #arte #mulheresnegras #pioneira #madrinhadosamba
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
BARONETTI, Bruno Sanches. Espaços de sociabilidade das populações negras em São Paulo: as escolas de samba e suas intersecções com os movimentos associativos (1949-1978). São Paulo: USP – Universidade de São Paulo, 2021. Disponível em: Espaços de sociabilidade das populações negras em São Paulo: as escolas de samba…. Acesso em 7 set 2025.
GALANTE, Rafael; BITTENCOURT, Renata (org.). Música e Modernismos Negros. Rio de Janeiro: IMS – Instituto Moreira Salles, 2024. Disponível em: Música e modernismos negros – Formação a partir do acervo IMS by Instituto Moreira Salles – Issuu. Acesso em 7 set 2025.
OLIVEIRA, Marcus Vinicius Chagas. Donas, bambas, batuques e a Escola de Samba do Lavapés: espacialidades e cultura negra na liberdade do pós-abolição (1888-2020). São Paulo: USP – Universidade de São Paulo, 2020. Disponível em: 2020_MarcusViniciusChagasOliveira_TGI.pdf. Acesso em 7 set 2025.
SANTOS, Alberto Luiz dos. O samba como patrimônio cultural em São Paulo (SP): As batucadas de beira de campo e o futebol de várzea. São Paulo: USP – Universidade de São Paulo, 2021. Disponível em: 2021_AlbertoLuizDosSantos_VCorr.pdf. Acesso em 7 set 2025.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2008.
- Sites:
Por que não Praça Madrinha Eunice? Áfricas, 2 de junho de 2023. Disponível em: Por que não Praça Madrinha Eunice? – Africas. Acesso em 7 set 2025.
Estátua da sambista negra Madrinha Eunice é inaugurada na Liberdade. São Paulo: G1, 2 de abril de 2022. Disponível em: Estátua da sambista negra Madrinha Eunice é inaugurada na Liberdade. Acesso em 7 set 2025.
Liga-SP celebra os 115 anos de Madrinha Eunice com homenagem emocionante. São Paulo: Liga-SP, 17 de outubro de 2024. Disponível em: Liga-SP celebra os 115 anos de Madrinha Eunice com homenagem emocionante – Liga-SP. Acesso em 7 set 2025.
MADRINHA EUNICE: CUIDADO E PERTENCIMENTO PARA MAIS DE 40 CRIANÇAS. Baixadadoglicerioviva, Instagram, 16 de agosto de 2025. Disponível em: Instagram.. Acesso em 7 set 2025.