Pintora, pianista, intelectual e ativista política, uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores.
Maria Amélia Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 25 de janeiro de 1910, em uma família de forte tradição política e intelectual. Era filha de Francisco Cesário de Faria Alvim e Maria do Carmo Carvalho, e neta de José Cesário de Faria Alvim, figura de grande projeção na vida pública brasileira — advogado, senador, ministro e presidente do estado de Minas Gerais nos primeiros anos da República.
Se, por herança, a política já fazia parte de seu entorno, Maria Amélia construiu à sua maneira uma trajetória marcada pela cultura, pela reflexão e pelo compromisso com o país.
Em 1936, casou-se com o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, com quem teve sete filhos: Heloísa Maria (Miúcha), Sérgio Filho, Álvaro Augusto, Francisco (Chico Buarque), Maria do Carmo (Piií), Anna Maria (Ana de Hollanda) e Maria Christina (Cristina Buarque). No círculo familiar, ficou conhecida como Memélia, apelido dado por sua neta Bebel Gilberto.
A vida doméstica, no entanto, esteve longe de ser apenas um espaço privado. Como lembraria o cineasta Nelson Pereira dos Santos, Maria Amélia foi responsável por sustentar a estrutura cotidiana que permitiu a Sérgio Buarque dedicar-se à sua obra. Mais do que isso: foi também interlocutora intelectual ativa. Depoimentos como o do crítico Antonio Candido indicam que sua presença foi decisiva na elaboração de parte do pensamento do historiador, revelando uma dimensão muitas vezes invisibilizada do trabalho intelectual feminino.
A casa da família, especialmente no período entre as décadas de 1960 e 1970, tornou-se um verdadeiro ponto de encontro da vida cultural brasileira. Ali circulavam nomes como Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Fernando Henrique Cardoso, Vinícius de Moraes, Paulo Vanzolini, Toquinho, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em tempos de ditadura militar, o espaço também funcionou como território de convivência, criação e resistência.
Para além de sua atuação política e de seu papel no ambiente intelectual, Maria Amélia cultivava uma relação próxima com as artes. Dedicava-se à pintura e ao piano, práticas que atravessaram sua vida de forma mais íntima do que pública, compondo um universo sensível que dialogava com a intensa vida cultural que a cercava. Mas sua atuação ultrapassou os limites das artes.
Na política, teve papel ativo na fundação do Partido dos Trabalhadores, ao lado de seu marido. Após a morte de Sérgio Buarque de Hollanda, sua proximidade com Luiz Inácio Lula da Silva se intensificou. Admiradora de sua trajetória, foi a primeira pessoa a realizar uma doação para a campanha presidencial de Lula em 1989, gesto simbólico, feito a partir da pensão que recebia como viúva.
Sobre essa relação, afirmou, já próxima de completar 100 anos:
“Conheço o Lula desde que ele era metalúrgico e sempre fiz muita fé nele. É um homem tão rico no modo de ser.”
Seu centenário, em 2010, reuniu familiares, amigos e importantes figuras da vida cultural e política brasileira, entre eles Oscar Niemeyer, Antonio Candido, Frei Betto e o próprio presidente Lula.
Maria Amélia faleceu poucos meses depois, em 05 de maio de 2010, aos 100 anos, de forma tranquila, durante o sono. Sua partida mobilizou diversas manifestações públicas, incluindo uma nota de pesar do presidente Lula, que destacou sua “ternura aliada à firmeza” e seu compromisso com a justiça social.
Seu nome permanece vivo em diferentes dimensões. No Rio de Janeiro, a Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, inaugurada em 2012, tornou-se referência em atenção humanizada ao parto, aproximando-se das diretrizes da Organização Mundial da Saúde e realizando dezenas de milhares de nascimentos.
Outra dimensão simbólica de seu legado está na casa da família Buarque de Hollanda, no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Espaço histórico de efervescência cultural e política, a casa foi desapropriada pelo poder público e posteriormente ocupada por estudantes e movimentos culturais, que reivindicavam sua transformação em centro de memória e produção de conhecimento. A própria Maria Amélia, ainda em vida, havia apoiado a ideia de destinar o espaço a um projeto voltado à pesquisa histórica, iniciativa que, no entanto, não chegou a se concretizar.
Entre memórias familiares, atuação política, produção cultural e presença silenciosa, mas decisiva, na vida intelectual brasileira, Maria Amélia construiu uma trajetória que atravessa o século XX. Sua história revela não apenas a força das mulheres nos bastidores da cultura e da política, mas também sua capacidade de intervir, influenciar e sustentar projetos coletivos de transformação.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
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REFERÊNCIAS:
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- Sites:
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