Carnavalesca, figurinista, comentarista, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ e decana do júri do Estandarte de Ouro
Maria Augusta Rodrigues nasceu em 23 de janeiro de 1942, em São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro. Desde a infância, acompanhava a mãe nas festas populares da região, onde teve seus primeiros contatos com o carnaval: bois pintados dançando nas ruas, bailes de clube, ranchos e caboclos. Essas experiências sensoriais e afetivas despertaram precocemente sua paixão pelas cores, pela música e pela cultura popular.
Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no internato do Colégio Bennett. Os domingos, quando podia visitar os avós no Flamengo, tornaram-se momentos de liberdade e observação, contrastando com a rotina rígida do colégio. Em entrevistas, Maria Augusta recordava esse deslocamento entre o engenho de açúcar da infância, marcado pela vida livre, e a disciplina do internato como uma experiência que só mais tarde compreenderia em profundidade.
Ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ), onde iniciou sua formação artística. Tornou-se discípula de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, integrando o grupo responsável pela chamada revolução salgueirense, que transformou o carnaval carioca ao introduzir novas linguagens visuais, temáticas populares e referências afro-brasileiras. Segundo Flávia Oliveira, Maria Augusta participou de carnavais campeões do Salgueiro e, paralelamente, construiu uma sólida carreira como professora da EBA, lecionando cenografia, indumentária histórica e teoria da forma e da cor.
Seu primeiro contato direto com o carnaval ocorreu no fim da década de 1960, no Império da Tijuca, mas foi no Acadêmicos do Salgueiro que sua trajetória se consolidou. Em 1969, aos 27 anos, auxiliava Fernando Pamplona na decoração do baile de carnaval do Copacabana Palace quando recebeu, de Arlindo Rodrigues, o convite decisivo para trabalhar no barracão da escola. Ali, assumiu a criação de uma alegoria – gesto inaugural de uma carreira que marcaria profundamente o carnaval brasileiro.
Maria Augusta assinou enredos históricos como Bahia de Todos os Deuses (1969) e Festa para um Rei Negro (1971), nos quais celebrou a ancestralidade africana e a cultura popular. Mais tarde, na União da Ilha do Governador, realizou trabalhos que considerava centrais em sua trajetória, como Domingo (1977) e O Amanhã (1978), ambos reconhecidos como marcos estéticos, ainda que não tenham sido campeões. Foi ali que seu estilo se afirmou de forma mais explicita, como ela própria reconhecia.
Em 1985, concebeu o primeiro desfile da escola de samba Tradição. Apesar de sua relevância, apenas em 1993 foi remunerada formalmente como carnavalesca, na Beija-Flor de Nilópolis, com o enredo Uni-duni-tê, a Beija-Flor escolheu: é você. Também contribuiu com o carnaval da Paraíso do Tuiuti, foi madrinha de bateria do Império Serrano e madrinha de Selminha Sorriso, tornando-se referência ética e estética para diversas gerações.
A partir dos anos 1970, Maria Augusta destacou-se por uma abordagem inovadora: uso consciente de materiais mais simples, valorização do cotidiano como tema e abandono das narrativas históricas grandiosas. Em oposição ao “luxo do brilho”, associado a outras correntes do carnaval, desenvolveu o que ficou conhecido como “luxo da cor” — uma poética que democratizava a beleza e tornava o desfile impactante sem depender de recursos financeiros excessivos.
Como professora, pesquisadora e comentarista, Maria Augusta exerceu papel formador decisivo. Na EBA/UFRJ, ensinou gerações a pensar criticamente a cor, a forma e o espaço. Na televisão, como comentarista das emissoras Manchete, Bandeirantes e Globo e como decana do júri do Estandarte de Ouro, consolidou a ideia de que o carnaval é uma manifestação artística complexa, que exige rigor, conhecimento e respeito.
Candomblecista, filha de Xangô, articulava espiritualidade e criação artística de forma orgânica. Também atuou como mediadora cultural, recebendo pesquisadores e profissionais estrangeiros interessados no carnaval brasileiro e promovendo intercâmbios acadêmicos e artísticos. Entre eles, destacam-se uma estadia de sete meses em Paris (1969–1970) e viagens à África, especialmente à Argélia e ao Marrocos.
O reconhecimento público de sua trajetória intensificou-se nos últimos anos. Em 2004, tornou-se enredo da escola de samba Arranco, no então Grupo B. Em 2023, o Sesc Madureira realizou uma exposição com desenhos, croquis e objetos de seu acervo pessoal.
Em 2025, recebeu homenagem da escola mirim Aprendizes do Salgueiro, encerrando simbolicamente sua trajetória junto à agremiação que marcou seu início no carnaval. Maria Augusta Rodrigues faleceu em 11 de julho de 2025. Deixou um acervo de mais de dois mil desenhos, fantasias e documentos preservados em seu apartamento no Flamengo, um patrimônio inestimável que reúne, de forma indissociável, sua história pessoal e a história do samba.
Maria Augusta permanece como uma das grandes pensadoras do carnaval brasileiro: mestra das cores, da forma e da ética do desfile. Sua obra segue ensinando que a cultura popular é um campo de invenção, rigor e inteligência coletiva.
Texto Inspirado no verbete contido no Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #cultura #estandartedeouro #antirracismo #carnaval #samba #arte #eba #artesplasticas #pioneira #luxodacor #comentaristadecarnaval
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
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