Primeira médica negra formada no Brasil e primeira professora negra de Medicina do país.
Maria Odília Teixeira foi uma figura pioneira na história da educação superior brasileira e da presença de mulheres negras nas profissões científicas. Nascida em 05 de março de 1884, em São Félix do Paraguaçu, na Bahia, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia (FAMEB), atual UFBA, em 1909, tornando-se a primeira mulher negra diplomada em Medicina no Brasil e a primeira professora negra da instituição.
Para ingressar no curso, Maria Odília precisou apresentar uma petição formal à direção da FAMEB, em março de 1904, comprovando sua formação prévia como bacharela em Ciências e Letras pelo Gymnasio da Bahia — exigência comum às mulheres que buscavam acesso ao ensino superior naquele período. Sua trajetória acadêmica ocorreu em um contexto marcado por profundas desigualdades raciais e de gênero, em uma instituição que já ultrapassava um século de existência e onde a presença feminina ainda era exceção.
Graduou-se com a tese “Algumas considerações acerca da curabilidade e do tratamento das cirrhoses alcoólicas”, destoando das áreas tradicionalmente associadas às poucas mulheres médicas formadas anteriormente, que em geral se concentravam na obstetrícia ou pediatria. Poucos anos após a formatura, foi nomeada parteira da Maternidade Climério de Oliveira e, posteriormente, atuou como Auxiliar de Ensino da Cadeira de Clínica Obstétrica, consolidando sua atuação também no campo da docência médica.
Apesar do caráter histórico de sua formação e de sua inserção institucional, a trajetória profissional de Maria Odília foi relativamente breve. Após seu casamento, em 1921, com o advogado Eusínio Gaston Lavigne, afastou-se progressivamente do exercício da Medicina e da docência, dedicando-se à vida familiar. Esse afastamento, longe de ser interpretado como escolha individual isolada, expressa os limites estruturais impostos às mulheres — especialmente às mulheres negras — no acesso, permanência e reconhecimento nas carreiras científicas e profissionais ao longo do século XX.
A memória de Maria Odília Teixeira permaneceu por décadas marcada pelo apagamento institucional e pela escassez de registros públicos. Embora, sabe-se que ela faleceu em 1970, não há informações precisas sobre o dia da sua morte nem sobre seu local de sepultamento, fato que evidencia os silêncios históricos em torno das trajetórias de mulheres negras pioneiras. Ainda assim, sua história foi retomada por pesquisas acadêmicas recentes e por produções culturais que reafirmam sua importância como marco histórico.
Maria Odília Teixeira inscreve-se na história não por uma carreira longa ou militante, mas por ter rompido barreiras raciais e de gênero em um campo profundamente elitizado, abrindo caminhos simbólicos e concretos para as gerações seguintes. Sua trajetória revela tanto a força do pioneirismo quanto os limites estruturais de uma sociedade que, mesmo diante da excelência e da formação de mulheres negras, restringiu suas possibilidades de permanência e reconhecimento.
Texto Inspirado no verbete contido no livro Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
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Referências
Produções acadêmicas
SANTOS, Mayara Priscilla de Jesus dos. Maria Odília Teixeira: a primeira médica negra da Faculdade de Medicina da Bahia (1884–1937). Salvador: UFBA, 2019.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2008.
TEIXEIRA, Maria Odília. Algumas considerações acerca da curabilidade e do tratamento das cirroses alcoólicas. Tese (Inaugural) – Faculdade de Medicina da Bahia. Cachoeira: Typographia d’A Ordem, 1909.
Sites e matérias jornalísticas
CREMEB – Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia. Dia da Mulher: conheça Maria Odília Teixeira, a primeira médica negra do Brasil. Salvador, 8 mar. 2019.
ALMA PRETA JORNALISMO. Primeira médica negra do Brasil é homenageada em centro cirúrgico em Salvador. 5 ago. 2025.