• Marina Colasanti (1937–2025)

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Escritora, jornalista, tradutora, artista plástica e intelectual feminista

Marina Colasanti nasceu em 26 de setembro de 1937, em Asmara, então colônia italiana na Eritreia. Filha de uma família italiana, viveu a infância entre a África, a Líbia e a Itália, atravessando os deslocamentos e instabilidades do período pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1948, ainda criança, imigrou com a família para o Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro, cidade que se tornaria seu território afetivo, intelectual e político.

Essa experiência precoce de trânsito, exílio e recomposição de pertencimentos marcou profundamente sua obra, atravessada por temas como deslocamento, identidade, silêncio, desejo, poder e liberdade — especialmente a liberdade das mulheres.

Formou-se como artista plástica e iniciou sua trajetória profissional no jornalismo, atuando por décadas na imprensa brasileira, com destaque para sua colaboração no Jornal do Brasil, onde escreveu crônicas, ensaios e textos culturais. Foi também tradutora e editora, exercendo papel decisivo na mediação cultural entre literatura, arte e pensamento crítico.

Sua estreia literária ocorreu em 1968, com Eu Sozinha. A partir de então, construiu uma das obras mais vastas, consistentes e singulares da literatura brasileira contemporânea, com mais de 70 livros publicados no Brasil e no exterior, abrangendo poesia, contos, crônicas, ensaios e, sobretudo, literatura infantil e juvenil — campo no qual renovou linguagem, temas e perspectivas.

A escrita de Marina Colasanti é reconhecida pela concisão poética, pelo uso simbólico do maravilhoso, pela ironia fina e pela crítica profunda às estruturas patriarcais. Seus textos abordam o feminino não como tema isolado, mas como eixo de questionamento das relações de poder, do amor, da sexualidade, do corpo e da autonomia. Muitas de suas narrativas reelaboram mitos, contos de fadas e arquétipos tradicionais a partir de um olhar radicalmente feminino e emancipador.

Além de escritora, Marina retomou ao longo da vida sua formação em artes visuais, ilustrando parte de suas próprias obras, numa articulação entre palavra e imagem que reforça o caráter autoral e experimental de sua produção.

Marina Colasanti não foi apenas uma escritora de reconhecimento estético: foi também uma intelectual pública comprometida com a democracia e os direitos das mulheres. Em 1985, foi nomeada Conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher(CNDM), órgão recém-criado no contexto da redemocratização brasileira, vinculado ao governo federal.

Nesse espaço, Marina integrou o conjunto de mulheres que articularam, formularam e incidiram politicamente para garantir a inclusão dos direitos das mulheres na Constituição Federal de 1988. Sua atuação combinava reflexão teórica, produção simbólica e engajamento institucional, marca constante de sua trajetória.

Ela também foi uma das intelectuais entrevistadas no documentário Lobby do Batom, dirigido por Gabriela Gastal, obra fundamental para a memória feminista brasileira, que registra a mobilização histórica das mulheres durante a Assembleia Nacional Constituinte.

Ao longo de sua carreira, Marina Colasanti recebeu inúmeros prêmios literários, entre eles nove Prêmios Jabuti, além de distinções nacionais e internacionais. Em 2023, tornou-se a 10ª mulher a receber o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras — um dos mais altos reconhecimentos da literatura brasileira — consagrando o conjunto de sua obra.

Foi casada com o poeta e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna, com quem manteve intensa interlocução intelectual, e teve uma filha. Sua obra é amplamente estudada em universidades, sendo objeto de teses, dissertações e pesquisas no Brasil e no exterior.

Marina Colasanti faleceu em 28 de janeiro de 2025, aos 87 anos, no Rio de Janeiro. Seu velório foi realizado no Parque Lage, espaço simbólico de cultura e memória, onde viveu.

Marina Colasanti deixa um legado incontornável para a literatura, o feminismo e a cultura brasileira. Sua escrita segue como território de liberdade, inteligência e beleza, e sua atuação política permanece como referência de uma geração de mulheres que souberam transformar palavra em ação, estética em ética, literatura em incidência.

Sua vida e obra afirmam que imaginar outros mundos é também um gesto político — e que escrever, para as mulheres, sempre foi uma forma de resistir.

Texto escrito por: Schuma Schumaher

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REFERÊNCIAS

• Produções acadêmicas

AZEVEDO, Ana Maria Lisboa de. O feminino e o maravilhoso na obra de Marina Colasanti. Dissertação (Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Rio de Janeiro, 1999.

BORDINI, Maria da Glória. A escrita do desejo: o feminino na narrativa de Marina Colasanti. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

CANDIDO, Antonio. Prefácios, críticas e referências à obra de Marina Colasanti. In: diversos textos críticos sobre literatura brasileira contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, vários anos.

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. São Paulo: EDUSP, 1995. (Verbete Marina Colasanti).

CUNHA, Maria Zilda da. Literatura infantil: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1999. (Capítulos com análise da obra de Marina Colasanti).

LIMA, Ana Claudia de Oliveira. O conto de fadas revisitado: gênero, poder e autonomia feminina em Marina Colasanti. Tese (Doutorado em Literatura). Universidade de São Paulo – USP, São Paulo, 2010.

MACHADO, Regina Zilberman. A literatura infantil brasileira: história e vozes femininas. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003. (Análise crítica da obra de Marina Colasanti).

• Entrevistas, depoimentos e programas

COLASANTI, Marina. Entrevista concedida ao programa Roda Viva. TV Cultura, São Paulo, 1988.

COLASANTI, Marina. Entrevistas concedidas ao Jornal do Brasil, décadas de 1970–1990.

COLASANTI, Marina. Entrevistas e depoimentos sobre literatura, feminismo e cultura. In: arquivos do Itaú Cultural e TV Cultura.

• Sites e imprensa

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Prêmio Machado de Assis – Marina Colasanti. Rio de Janeiro, 2023. Disponível no site da ABL. Acesso em: jan. 2025.

ITAÚ CULTURAL. Marina Colasanti: vida, obra e pensamento. São Paulo. Disponível em: www.itaucultural.org.br. Acesso em: jan. 2025.

OMENA, Mateus. Morre a escritora Marina Colasanti aos 87 anos. Rio de Janeiro, 28 jan. 2025.

G1 RIO. Morre aos 87 anos a escritora Marina Colasanti. Rio de Janeiro, 28 jan. 2025. Disponível em: g1.globo.com. Acesso em: jan. 2025.

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