• Mestra Griô Iara Deodoro (1955 –2024)

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Assistente social, educadora popular, bailarina, coreógrafa e referência da dança afro-gaúcha

Maria Iara Santos Deodoro nasceu em 25 de setembro de 1955, em Porto Alegre (RS). Era filha de Verônica da Silva Santos, conhecida como Tia Lili, e de Vilson Santos. Aos quatro anos de idade, perdeu o pai, passando a ser criada pela mãe junto com três filhas biológicas e um filho adotivo, em um contexto de dificuldades econômicas que marcaria profundamente sua trajetória.

Para garantir a permanência das crianças na escola, sua mãe buscou bolsas de estudo em instituições privadas. Aos oito anos, Iara foi contemplada com uma bolsa no Colégio Santa Inês, escola confessional católica localizada no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Foi nesse espaço que, entre 1963 e 1964, teve seus primeiros contatos com a dança, por meio das práticas corporais da então chamada Ginástica Educacional Feminina Moderna, ministrada pela professora Nilva Therezinha Dutra Pinto.

Nilva Pinto foi a primeira e principal formadora de Iara, acompanhando sua formação artística paralelamente ao ensino fundamental e médio. Importante precursora do ensino da dança em contextos escolares na capital gaúcha, Nilva coordenava um grupo que investigava diferentes culturas, com especial atenção às danças folclóricas brasileiras. Essa abordagem marcou profundamente a formação estética e pedagógica de Iara, que mais tarde sistematizaria sua própria linguagem corporal.

Inserida em um ambiente escolar privado e majoritariamente branco, Iara relatou que não percebia o racismo durante a infância — percepção que, segundo ela mesma, só se tornaria evidente mais tarde, quando o racismo se apresentaria de forma mais direta e agressiva (Deodoro, 2018).

A consolidação de sua trajetória artística e política ocorre com a fundação do Grupo Afro-Sul Odomodê, em 1974. À época, Iara tinha 18 anos e integrava um grupo de jovens músicos e bailarinos negros que participavam de um festival estudantil. O projeto nasceu sem grandes pretensões institucionais, mas profundamente enraizado na busca por identidade, pertencimento e afirmação cultural. Como a própria Mestra afirmou: “Éramos adolescentes negros inquietos com a própria identidade, tentando entender o porquê da discriminação e do ódio.”

O Afro-Sul tornou-se um dos mais importantes coletivos culturais do Rio Grande do Sul, desenvolvendo projetos educacionais e artísticos nas áreas de dança, música, moda e gastronomia, a partir das culturas africanas e afro-brasileiras. Foi nesse contexto que Iara sistematizou a dança afro-gaúcha, articulando gesto, ritmo, ancestralidade e pedagogia, conforme analisado por Natália Proença Dorneles. Seu trabalho consolidou uma estética própria, ao mesmo tempo local e diaspórica, profundamente marcada pela filosofia do Ubuntu — “eu sou porque nós somos”.

A dimensão comunitária de sua atuação sempre esteve no centro de sua prática. Mestra Iara foi reconhecida como liderança afetuosa, formadora de gerações e referência ética. Segundo o figurinista e coreógrafo Gugu Lacerda, ela era uma “mãe incansável”, não apenas para sua família biológica, mas para a extensa rede de artistas e jovens formados no Afro-Sul.

Ao longo de cinco décadas de atuação, Mestra Iara dirigiu e coreografou mais de 30 espetáculos, participou de atividades carnavalescas como porta-bandeira, concedeu entrevistas, ministrou cursos, palestras e oficinas, e esteve presente em programas como Sobre Nós, da TVE, no qual refletiu sobre envelhecimento, arte e projetos voltados à população idosa.

Durante a pandemia da covid-19, manteve-se ativa, mobilizando estratégias de sobrevivência coletiva para o Grupo Afro-Sul, como ações solidárias, participação em editais e atividades formativas virtuais. Seu compromisso com a educação popular, a luta antirracista e a autonomia cultural permaneceram inabalável até o fim da vida.

Mestra Griô Iara Deodoro faleceu em 27 de setembro de 2024, em decorrência de complicações relacionadas a uma parada cardíaca sofrida em maio daquele ano, período marcado pelas enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul. Partiu dois dias após completar 69 anos.

Diversas instituições e coletivos manifestaram pesar, entre eles os Imperadores do Samba, o SATED-RS, a Funarte, o Ibram, o Ministério da Cultura e o próprio Grupo Afro-Sul. Em nota, o SATED-RS afirmou que Iara “foi coreografar os anjos no firmamento”, reconhecendo seu papel como formadora de gerações e guardiã da cultura afro-gaúcha.

A Agência Brasil registrou o depoimento de Luana Paré, ex-integrante do Afro-Sul, que sintetiza o alcance humano de sua trajetória: “Iara foi mãe, tia e avó de muitos. Uma potência de amor, dedicação e excelência para gerações de mulheres, homens e crianças negras.”

Manter viva a memória de Mestra Griô Iara Deodoro é reconhecer a força de uma vida dedicada à arte como prática coletiva, à ancestralidade como fundamento político e à educação como caminho de emancipação. Sua presença segue ecoando nos corpos, nos tambores e nas histórias que ajudou a semear no sul do Brasil.

Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

DORNELES, Natália Proença. Iara Deodoro, potência africana no sul do brasil: uma proposta de sistematização em dança afro-gaúcha como resistência da corporalidade negra no Rio Grande do Sul. UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2020. Disponível em: *001129421.pdf (ufrgs.br). Acesso em 22 out 2024.

NETO, Manoel Gildo Alves; SILVA, Suzane Weber da. A encruzilhada corpo-tambor na trajetória da dança afro-gaúcha de mestra Iara. Salvador: Repertório, ano 25, n. 39, p. 114-138, 2022.

NETO, Manoel Gildo Alves; SILVA, Suzane Weber da. Ìpàdé com Mestra Iara Deodoro: memórias do Grupo Afro-Sul, um pedaço da África no Sul do Brasil. Porto Alegre: Revista Brasileira de Estudos da Presença, v. 12, n° 1, janeiro a março de 2022. Disponível em: *23 Ìpàdé com Mestra Iara Deodoro (scielo.br). Acesso em 22 out 2024.

  • Sites

afrosul.odomodeoficial. Instagram, 11 de maio de 2024 Disponível em: Afro-Sul Odomode Oficial | Neste momento de caos que atinge o Rio Grande do Sul, convocamos nossos amigos e parceiros a se unirem para apoiar as comunidades negras e… | Instagram. Acesso em 22 out 2024.

Enchentes afetam comunidades negras e quilombolas | BandNews TV. Facebook, BandNews TV, 13 de maio de 2024. Disponível em: (12) Vídeo | Facebook. Acesso em 22 out 2024.

FILHO, Alexandre Briozo Gomes. Ilhadas e com infraestrutura precarizada, comunidades quilombolas rurais enfrentam dificuldades em meio às chuvas e estragos das enchentes. UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jornal da Universidade: 17 de maio de 2024. Disponível em: Ilhadas e com infraestrutura precarizada, comunidades quilombolas rurais enfrentam dificuldades em meio às chuvas e estragos das enchentes – Jornal da Universidade (ufrgs.br). Acesso em 22 out 2024.

Imperadores do Samba lamenta profundamente o falecimento de Iara Deodoro, uma verdadeira Griô e Mestra da nossa cultura. Imperadores do Samba, 27 de setembro de 2024. Disponível em: Imperadores do Samba lamenta profundamente… – Imperadores do Samba | Facebook. Acesso em 22 out 2024.

LAMPERT, Adriana. Dama da dança afro-gaúcha. Porto Alegre: Jornal do Comértio, 4 a 6 de outubro de 2024. Disponível em: 04-JVI008.pdf (jornaldocomercio.com). Acesso em 22 out 2024.

Mestra Iara Deodoro. UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Encontro de Saberes. Disponível em: Mestra griô Iara Deodoro (Afrosul-Odomodê) – ENCONTRO DE SABERES (ufrgs.br). Acesso em 22 out 2024.

Morre coreógrafa e bailarina Iara Deodoro, referência na cultura afro-gaúcha. Porto Alegre: Zero Hora, 28 de setembro de 2024. Disponível em: Morre coreógrafa e bailarina Iara Deodoro, referência na cultura afro-gaúcha | GZH (clicrbs.com.br). Acesso em 22 out 2024.

Morre Iara Deodoro, referência na cultura afro-gaúcha, aos 68 anos. Porto Alegre: Correio do Povo: 28 de setembro de 2024. Disponível em: Morre Iara Deodoro, referência na cultura afro-gaúcha, aos 68 anos (correiodopovo.com.br). Acesso em 22 out 2024.

Nota de pesar – Mestra Griô Iara Deodoro, do Ponto de Cultura Afrosul Odomodê. Brasília, DF: MinC – Ministério da Cultura, 28 de setembro de 2024. Disponível em: Nota de pesar – Mestra Griô Iara Deodoro, do Ponto de Cultura Afrosul Odomodê — Ministério da Cultura (www.gov.br). Acesso em 22 out 2024.

Nota de pesar pelo falecimento da Mestra Griô Iara Deodoro. Brasília, DF: Ibram – Instituto Brasileiro de Museus, 30 de setembro de 2024. Disponível em: Nota de pesar pelo falecimento da Mestra Griô Iara Deodoro — Instituto Brasileiro de Museus – Ibram (www.gov.br). Acesso em 22 out 2024.

NUNES, Juliana Cézar. Morre Iara Deodoro, bailarina e referência da dança afro-gaúcha. Brasília, DF: Agência Brasil, 28 de setembro de 2024. Disponível em: Morre Iara Deodoro, bailarina e referência da dança afro-gaúcha | Agência Brasil (ebc.com.br). Acesso em 22 out 2024.

POEMA A NANÃ BURUQUÊ. Facebook, Filhos Do Vento, 6 de agosto de 2017. Disponível em: Filhos Do Vento – POEMA A NANÃ BURUQUÊ Senhora amada que ilumina… | Facebook. Acesso em 22 out 2024.

satedrs. Instagram, 28 de setembro de 2024. Disponível em: SATED RS | Iara Deodoro, mestra griô, se transforma no axé em todas nós. Seus ensinamentos serão levados adiante junto com um dos guardiões da cultura… | Instagram. Acesso em 22 out 2024.

sobrenostve. Instagram, 30 de setembro de 2024. Disponível em: Sobre Nós | Em homenagem à Mestra Griô Iara Deodoro, que faleceu na sexta-feira, 27/09, a TVE vai reprisar o programa Sobre Nós, do qual ela… | Instagram. Acesso em 22 out 2024.

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