Cortesã, figura célebre da vida noturna paulista e vítima de feminicídio.
Romilda Macchiaverni nasceu em 1897, filha de imigrantes italianos, em uma família marcada pelas dificuldades materiais comuns à grande leva migratória que chegou ao Brasil no final do século XIX. Seus pais, Raymundo Macchiaverni e Philomena Eboli, se casaram em São Paulo em 1895. A trajetória familiar de Romilda insere-se no contexto das políticas de imigração e branqueamento, que trouxeram ao país milhares de famílias pobres da Europa, muitas delas destinadas a viver em condições precárias nos centros urbanos em expansão.
Ainda jovem, Romilda viveu no bairro do Brás, região operária separada do centro paulistano pela ferrovia Santos–Jundiaí. Como muitas mulheres imigrantes, iniciou sua vida laboral em ocupações consideradas femininas, trabalhando como costureira e, posteriormente, como camareira em hotéis. A precariedade do trabalho, os baixos salários e a ausência de perspectivas concretas de ascensão social levaram Romilda a buscar outras formas de sobrevivência.
Foi nesse contexto que passou a atuar como acompanhante de luxo, primeiro em Santos e depois em São Paulo. Nessa época, Romilda Macchiaverni adotou o nome de Nenê Romano e assim passou a ser conhecida pela imprensa que frequentemente a descrevia como cortesã — termo então utilizado para nomear mulheres que viviam de relações afetivo-sexuais mediadas por dinheiro. O uso dessa categoria reflete a moral e os códigos sociais do período, hoje reconhecidos como profundamente marcados pelo controle e pela estigmatização das mulheres.
De beleza amplamente celebrada nos jornais da época, Nenê Romano rapidamente se tornou uma figura conhecida na vida noturna paulista, circulando entre homens da elite econômica e política. Diferentemente do estereótipo da mulher “mantida”, Nenê construiu relativa autonomia financeira, alugando a própria casa e organizando seus atendimentos de modo a preservar o anonimato e a reputação de seus clientes. Essa autonomia feminina, rara para o período, foi também uma das fontes de sua vulnerabilidade.
Em 1918, durante o carnaval, Nenê tornou-se alvo da violência de uma família poderosa. Um episódio banal — interpretado como provocação ou flerte — despertou o ciúme e a fúria de Maria Eugênia Junqueira, filha de dona Iria Alves Ferreira, viúva rica e figura influente na região. Na noite de 20 de setembro de 1918, Nenê foi atacada por três homens enquanto retornava para casa com sua empregada. Os agressores, identificados como capangas ligados à Fazenda Pau Alto, de propriedade de dona Iria, tinham como objetivo desfigurá-la com golpes de navalha, de modo que fosse forçada a abandonar a cidade e a profissão.
Nenê sobreviveu ao ataque. Recusou-se a desaparecer ou a se esconder. Recuperou-se das feridas e seguiu vivendo como cortesã, desafiando a lógica de submissão e silêncio esperada das mulheres violentadas. Buscou reparação judicial pelos danos sofridos, mas a ação foi sistematicamente obstruída pelo poder econômico e político de dona Iria. Mesmo após a confissão de um dos envolvidos, que admitiu ter agido a mando da fazendeira, não houve responsabilização efetiva. A impunidade marcou mais uma vez a história da violência contra mulheres no Brasil.
Alguns anos depois, Nenê Romano seria novamente vítima de uma violência ainda mais extrema. Em meio à tentativa frustrada de obter justiça, conheceu o advogado Moacyr Piza, com quem manteve um relacionamento por cerca de dois anos. O vínculo revelou-se marcado por controle, ciúme e obsessão. Ao decidir romper a relação e retomar sua autonomia, Nenê passou a ser perseguida por Moacyr, que não aceitava a recusa e a liberdade de uma mulher.
Na noite de 25 de outubro de 1923, enquanto aguardava um automóvel, Nenê foi abordada por Moacyr, que insistiu em acompanhá-la. Já dentro do carro, ele sacou um revólver e disparou três vezes contra ela. Nenê morreu no local, tendo tempo apenas de pronunciar: “Ai, Moacyr”. Em seguida, o agressor atirou contra o próprio peito, morrendo pouco depois.
O assassinato foi amplamente noticiado pela imprensa, que, em grande parte, construiu uma narrativa moralizante e misógina. Nenê foi descrita como mulher sedutora, interesseira e responsável pela “queda” de homens da elite, enquanto Moacyr Piza foi frequentemente retratado como jovem promissor, vítima de uma paixão desmedida. Pouco se falou sobre a violência de gênero, o controle, a obsessão e o direito de Nenê de decidir sobre sua própria vida. Trata-se de um caso exemplar de feminicídio precursor, ocorrido décadas antes da existência do termo, mas plenamente reconhecível à luz dos debates contemporâneos.
Após sua morte, Nenê Romano foi sepultada sem honrarias. Registros indicam que seu enterro ocorreu no Cemitério do Araçá. Com o passar dos anos, o jazigo foi abandonado e, em 1995, seus restos mortais foram transferidos para o ossário geral, apagando materialmente sua memória individual. O nome do feminicida, por outro lado, permaneceu inscrito no espaço urbano paulistano, reproduzindo a lógica histórica de glorificação masculina e silenciamento das vítimas.
No centenário de sua morte, em 2023, iniciativas de resgate da memória de Nenê Romano, provocadas pelo movimento feminista paulista, ganharam força. Foram apresentados projetos de lei visando a renomeação da Rua Moacyr Piza para Rua Nenê Romano e a retirada de seus restos mortais do ossário coletivo, com a criação de um espaço de memória digna. Essas ações representam não apenas um gesto simbólico, mas uma disputa concreta contra o apagamento histórico das mulheres vítimas de violência.
A trajetória de Nenê Romano revela, com contundência, como o feminicídio não é um desvio individual, mas um fenômeno estrutural, sustentado por relações de poder, desigualdade de gênero, moral sexual e impunidade. Resgatar sua história é um ato político de memória e justiça, que inscreve no presente, as vozes silenciadas do passado.
Texto: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher
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REFERÊNCIAS:
- Sites:
As políticas de branqueamento (1888-1920): uma reflexão sobre o racismo estrutural brasileiro. Por Dentro da África, 4 de setembro de 2019. Disponível em: As políticas de branqueamento (1888-1920): uma reflexão sobre o racismo estrutural brasileiro – Por dentro da África. Acesso em 11 jun 2025.
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