• Norma Bengell (1935 – 2013)

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Atriz, diretora, ativista política e feminista

Norma Bengell nasceu em 21 de fevereiro de 1935, na cidade do Rio de Janeiro. Era filha única de Christian Friedrich Bengell, belga, e de Maria da Glória Guimarães, brasileira de raízes indígenas, africanas e portuguesas. Seus pais haviam se casado no ano anterior ao seu nascimento, mas viveram uma relação conturbada. Em sua autobiografia, Norma relembra uma infância marcada por conflitos familiares constantes e por violências, incluindo o assédio sofrido por parte de seu padrinho durante a adolescência. Essas experiências a levaram a se definir como uma jovem precoce e rebelde — rebeldia que nascia de um profundo senso de justiça.

Após a separação dos pais, Norma abandonou os estudos para ajudar no sustento da casa, tornando-se modelo viva em um ateliê renomado da época. Pouco depois, sentiu-se atraída pelo teatro de revista, então em grande ascensão. Em 1954, aos 19 anos, estreou no palco do Hotel Copacabana Palace, considerado o espaço mais luxuoso do país naquele período. Foi ali que, em 1955, Carmen Miranda assistiu a uma de suas apresentações e lhe disse: “Menina, desta turma toda, você é quem vai ser uma grande estrela.”

Norma Bengell construiu uma trajetória ousada e marcante no cinema brasileiro e internacional, tornando-se também uma voz ativa na luta política. Sua coragem e talento deixaram um legado fundamental para a arte e para os direitos das mulheres no Brasil.

No início dos anos 1960, tornou-se a primeira mulher a realizar um nu frontal no cinema brasileiro, no filme Os Cafajestes, gesto que provocou enorme escândalo à época. O episódio marcou uma ruptura estética no cinema nacional, mas também desencadeou uma violenta reação moralista e misógina, liderada por setores conservadores da sociedade.

Sua atuação política se intensificou durante a ditadura militar. Norma estava presente no dia do assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, morto em março de 1968 durante protesto contra o aumento do preço das refeições no restaurante universitário no Rio de Janeiro. Na ocasião, declarou que preferiria não ter filhos a gerar vidas para serem assassinadas pelo regime. A frase ganhou repercussão nacional e a transformou em alvo direto da repressão.

Já famosa, passou a ser perseguida pelo regime militar e foi presa diversas vezes. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu após sua participação no programa Bronca da Semana, quando criticou a venda do Aeroporto do Galeão a estrangeiros, defendendo que os recursos deveriam ser investidos em escolas e hospitais. Pouco depois, foi sequestrada na porta de seu hotel em São Paulo. Conseguiu sair da prisão graças à intervenção de contatos no Exército e à pressão popular. Sua notoriedade, amplamente noticiada pela imprensa, provavelmente impediu que fosse assassinada. Ela própria descreveu o episódio: “Quando eu saí do hotel, vi um homem pular e se esconder. De repente, vieram uns quinze em cima de mim. Eu mordi, dei pontapé, pintei as canecas, e eles me enfiaram dentro de um Volkswagen com três homens.” Norma só deixou de ser perseguida oficialmente em 1985, com o fim da ditadura.

Norma tornou-se um fenômeno cultural. Como modelo, vedete, atriz, cantora, diretora e militante, rompeu limites impostos às mulheres na arte — e pagou caro por isso. Com Os Cafajestes, tornou-se símbolo de uma revolução sensorial no cinema, mas também alvo de campanhas difamatórias. Xingada e ameaçada, seguiu em frente.

Inteligente, poliglota e esteticamente ousada, encantou o cinema europeu ao integrar o elenco de O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte — até hoje o único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Conviveu com grandes nomes do cinema mundial, como Fellini, Alain Delon e Visconti. Na Itália, durante as filmagens de Noite Vazia (1963), conheceu e se casou com o ator Gabriele Tinti, de quem se separou em 1967. Após a separação, declarou-se feminista e passou a defender publicamente o direito das mulheres ao trabalho, ao divórcio, ao uso de contraceptivos e ao aborto, posicionamentos profundamente transgressores para a época.

Nos anos 1970, exilada na França em razão da ditadura, viveu um intenso relacionamento com a atriz Gilda Grilo, assumindo publicamente sua bissexualidade e liberdade afetiva. Em 1974, após o adoecimento da mãe, retornou ao Brasil e retomou sua carreira no teatro e no cinema, enfrentando, contudo, resistências políticas e institucionais.

Em 1977, lançou seu segundo LP, Norma Canta Mulheres, interpretando composições de mulheres e lançando sua música autoral Em Nome do Amor. Participou de diversos projetos conduzidos por mulheres, como o documentário Mulheres no Cinema, de Ana Maria Magalhães. Criou sua própria produtora e, em 1979, dirigiu um documentário sobre a atriz Maria Gladys. Em 1988, dirigiu Eternamente Pagu, obra amplamente celebrada.

Nos anos seguintes, enfrentou perseguições burocráticas e dificuldades financeiras. Dívidas milionárias, decorrentes de erros jurídicos e disputas administrativas relacionadas ao filme O Guarani (1996), quase destruíram sua estabilidade. Ainda assim, manteve-se firme. Em sua autobiografia, escreveu: “Durante a minha vida, me acusaram de ser muitas coisas: comunista, sapatão, sapatilha… mas nunca poderão me acusar de uma coisa: de que fui covarde.”

Nos anos 2000, voltou a conquistar grande popularidade ao interpretar a personagem Dayse Coturno no seriado Toma Lá Dá Cá. Em 2010, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente as violências sofridas por Norma durante a ditadura, concedendo-lhe anistia e indenização, junto a outros perseguidos políticos.

Já com a saúde fragilizada, após quedas domésticas que a levaram ao uso de cadeira de rodas, Norma faleceu em 9 de outubro de 2013, aos 78 anos. Sua despedida foi marcada por uma cerimônia discreta e pouca presença, o que gerou indignação entre artistas e cineastas. A então presidenta Dilma Rousseff enviou nota oficial destacando sua coragem, talento e relevância histórica.

Norma Bengell permanece viva na memória das mulheres que seguem lutando por liberdade, dignidade e espaço na arte e na vida. Não foi apenas símbolo sexual: foi símbolo de resistência. Ousou ser tudo aquilo que o patriarcado tenta interditar — livre, política, complexa e inesquecível.

Texto Adaptado do verbete contido no Dicionário de Mulheres do Brasil por: Emilson Gomes Junior, Liliane Brum Ribeiro e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

CORDEIRO, Débora Cristina da Silva. Por que algumas mulheres não denunciam seus agressores? Juiz de Fora: CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, nº 27, 2018, p. 365. Disponível em: Por que algumas mulheres não denunciam seus agressores? CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais. Acesso em 21 mai 2025.

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Dicionário Mulheres do Brasil, de 1500 até a atualidade: biográfico e ilustrado. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

  • Sites:

canalbrasil. Instagram, 21 de fevereiro de 2025. Disponível em: Instagram. Acesso em 21 mai 2025.

Claquete homenageia Norma Bengell. Rádios EBC, 12 de fevereiro de 2020. Disponível em: Claquete homenageia Norma Bengell | EBC Rádios. Acesso em 21 mai 2025.

DE SEX SYMBOL NACIONAL A ARTISTA MILITANTE PERSEGUIDA: NORMA BENGELL | feat. @cinemascopetv. YouTube, Sociocrônica, 30 de novembro de 2024. Disponível em: DE SEX SYMBOL NACIONAL A ARTISTA MILITANTE PERSEGUIDA: NORMA BENGELL | feat. @cinemascopetv. Acesso em 21 mai 2025.

Memórias da Cena – Norma Bengell #atrizesbrasileiras. YouTube, Encena Cia de Teatro, 2 de junho de 2022. Disponível em: Memórias da Cena – Norma Bengell #atrizesbrasileiras. Acesso em 21 mai 2025.

Mostra em Porto Alegre homenageia Norma Bengell. Papo de Cinema, 18 de outubro de 2013. Disponível em: Mostra em Porto Alegre homenageia Norma Bengell – Papo de Cinema. Acesso em 21 mai 2025.

mulhernocinema. Instagram, 18 de março de 2025. Disponível em: Mulher no Cinema | Em 2025, a atriz, diretora e produtora Norma Bengell completaria 90 anos. Durante uma carreira de cinco décadas, ela atuou em filmes… | Instagram. Acesso em 21 mai 2025.

Norma Bengell. IMDb. Disponível em: Norma Bengell – IMDb. Acesso em 21 mai 2025.

PÉCORA, Luísa. Um guia para conhecer Norma Bengell. Itaú Cultural, 11 de maio de 2025. Disponível em: Um guia para conhecer Norma Bengell | Itaú Cultural. Acesso em 21 mai 2025.

Provocações | Norma Bengel | 2010. TV Cultura. Disponível em: Provocações | Norma Bengel | 2010. Acesso em 21 mai 2025.

Roda Viva | Norma Bengell | 1988. YouTube, Roda Viva, 9 de julho de 2020. Disponível em: (255) Roda Viva | Norma Bengell | 1988 – YouTube. Acesso em 21 mai 2025.

Sessão de Gala: Norma Bengell é homenageada no domingo, dia 13. Globo, 10 de outubro de 2013. Disponível em: Rede Globo > filmes – Sessão de Gala: Norma Bengell é homenageada no domingo, dia 13. Acesso em 21 mai 2025.

Vida e história de Norma Bengell, uma das atrizes mais polêmicas do Brasil,é retratada em biografia. Disponível em https://cartaodevisita.r7.com/conteudo/8379/vida-e-historia-de-norma-bengell-uma-das-atrizes-mais-polemicas-do-brasil-e-retratada-em-biografia. Acesso em 02 jun 2025.

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