1ª Iyákékeré e 4ª Iyalorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá
Mãe Ondina — também chamada carinhosamente de Mãezinha ou Iwin Tona — foi a quarta Iyalorixá do célebre terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, fundado por Mãe Aninha. Figura central na história dessa casa de axé, destacou-se desde muito jovem por sua sensibilidade espiritual e por sua dedicação à comunidade.
Ondina Valéria Pimentel nasceu em 8 de fevereiro de 1916, a bordo de um navio da Companhia de Navegação Bahiana, desembarcando ainda recém-nascida na Ilha de Itaparica, na Bahia. Iniciou-se no candomblé ainda criança, por volta dos cinco anos de idade, em 1921, quando teve sua cabeça consagrada a Oxalá. Sua iniciação foi conduzida pela própria Mãe Aninha (Obá Biyi), na casa de seu pai, José Theodoro Pimentel, em Itaparica.
Precoce e espiritualmente sensível, aos 15 anos foi indicada por Mãe Aninha para assumir o posto de Iyákékeré do Ilê Axé Opô Afonjá, tornando-se a primeira Iyákékeré da casa. Nessa função, conhecida também como Mãe Pequena, espécie de mãe de santo adjunta, exerceu papel fundamental na organização espiritual e comunitária do terreiro. Anos mais tarde, entre 1969 e 1975, assumiu a liderança do Opô Afonjá como sua quarta Iyalorixá.
A sensibilidade e o compromisso de Mãe Ondina também se refletiam na forma como conduzia seus espaços religiosos. Antes mesmo de ser nomeada Iyákékeré do Opô Afonjá, ela já havia fundado um terreiro no Rio de Janeiro, no bairro do Éden, em São João de Meriti. Durante anos, dividiu-se entre os dois terreiros, na Bahia e no Rio de Janeiro, realizando longas viagens para atender às demandas espirituais e comunitárias de ambos.
Segundo relatos de pessoas iniciadas por ela, essas viagens eram feitas de ônibus e frequentemente deixavam marcas físicas do esforço. Tutuca de Iansã, que foi iniciada por Mãezinha e posteriormente teve seus preceitos concluídos por Mãe Stella de Oxóssi, após a morte de sua mãe de santo, recorda: “Essas viagens eram feitas de ônibus. O povo na rodoviária já a conhecia. Após as viagens, seus pés ficavam muito inchados. Ter que conduzir as obrigações daqui e de lá era muito cansativo. Mas ela era guerreira! Sempre que chegava de viagem mandava me chamar. Eu morava e estudava em Itaparica. Alguém sempre chegava com um bilhete dela para mim. Ela trazia bagagens e mais bagagens de presentes. Não tinha um que não fosse lembrado. Minha Mãe Mãezinha era muito boa. Sinto muita saudade.”
Para além de sua liderança espiritual, a trajetória de Mãe Ondina também revela a força de uma linhagem familiar marcada pela resistência negra. Seu avô, Marcos Theodoro Pimentel, conhecido como Velho Marcos, chegou a Itaparica ainda na condição de pessoa escravizada. Após conquistar sua liberdade legal, tornou-se uma figura respeitada na comunidade, atuando solidariamente com outras pessoas negras que ainda enfrentavam a escravidão.
Velho Marcos constituiu família e teve três filhos: José Theodoro, Flora Trindade Pimentel e Marcos Cardoso Pimentel, conhecido como Tio Marcos. Este último prosperou economicamente com a pesca da baleia, enriquecendo com o comércio do óleo extraído de sua gordura e seus derivados. Ao investir os lucros em imóveis, tornou-se uma figura de prestígio na região, reconhecido por sua atuação no comércio da baleação.
A história da família também se entrelaça profundamente com o candomblé. Em maio de 1881, Velho Marcos retornou a Lagos, na Nigéria, acompanhado de Tio Marcos. De lá trouxeram o assentamento de Babá Olukotun, ancestral ligado aos primórdios da tradição iorubá. De volta ao Brasil, Velho Marcos, então proprietário da Fazenda Tuntum, fundou um terreiro dedicado ao culto dos Eguns, por meio do qual seus filhos deram continuidade ao legado espiritual da família.
É nesse ambiente marcado por ancestralidade, espiritualidade e solidariedade comunitária que se forma a pequena Ondina. Graças à estabilidade econômica conquistada por seu pai, José Theodoro, ela teve acesso a uma educação pouco comum para meninas negras naquele período. Aprendeu a tocar piano e tornou-se professora de música.
Segundo registro publicado pelo portal Farol da Bahia: “Com as mãos bem cuidadas, rechonchudas e unhas pintadas de rosa claro, Egbome Tutuca a chamava de ‘mãos de boneca’. Mãezinha era uma exímia professora.”
Em 19 de março de 1975, Mãe Ondina faleceu em decorrência de um colapso cardíaco. Seu corpo seguiu em procissão até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Centro Histórico de Salvador, no Largo do Pelourinho, onde permaneceu exposto até o momento do sepultamento, conforme a tradição.
Sua memória permanece viva tanto entre pessoas de axé quanto entre pesquisadoras e pesquisadores da história afro-brasileira. Sua trajetória segue sendo celebrada em publicações, vídeos e registros que circulam em diferentes plataformas, preservando a lembrança dessa importante líder espiritual e comunitária.
Entre os registros que sobreviveram ao tempo, destaca-se a digitalização de uma carta manuscrita assinada por Mãe Ondina, atualmente preservada na página Letra Viva Leilões, na qual ela dialoga sobre questões de fé e de vida com os intelectuais Antonio Olinto e Zora Seljan.
Mulher de axé desde a infância, Mãe Ondina marcou profundamente a história do candomblé brasileiro, deixando um legado espiritual, cultural e comunitário que continua a inspirar gerações.
Texto inspirado no Livro Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
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REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
JUNIOR, Wellington Castellucci. A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834-1968. Instagram, 19 de março de 2025. Disponível em: SciELO Brasil – A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834-1968 A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834-1968. Acesso em 2 jan 2026.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.
- Sites:
agbara_omi. Instagram, 19 de março de 2025. Disponível em: (5) Instagram. Acesso em 2 jan 2026.
AZAVEDO, Adriano. Mãe Ondina: a Ninfa das ondas. Farol da Bahia, 13 de agosto de 2023. Disponível em: Mãe Ondina: a Ninfa das ondas – Farol da Bahia. Acesso em 2 jan 2026.
AZAVEDO, Adriano. Tia Pinguinho: Oxun fez por mim. Farol da Bahia, 23 de junho de 2024. Disponível em: Tia Pinguinho: Oxun fez por mim – Farol da Bahia. Acesso em 2 jan 2026.
Carta manuscrita e assinada por MÃE ONDINA ou MÃESINHA (Ondina Valéria Pimentel) para ANTONIO OLINTO e ZORA SELJAN. Rio de Janeiro: 14 de agosto de 1967. Disponível em: Carta manuscrita e assinada por MÃE ONDINA ou MÃESINHA. Acesso em 2 jan 2026.
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#MemóriaSagrada | Mãe Ondina Valéria Pimentel (1916–1975). Associação Ilé Ase Afeenojumo, 10 de junho de 2025. Disponível em: (5) Vídeo | Facebook. Acesso em 1 jan 2026.
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