• Sidneya Santos de Jesus (1944 –2000)

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Primeira mulher diretora de presídio

Sidneya Santos de Jesus, nascida em 1944 no Rio de Janeiro, construiu uma trajetória de competência e coragem, chegando à direção da Penitenciária Bangu I, unidade que à época era um presidio de segurança máxima. Assumindo o cargo em 1995, Sidneya manteve a unidade sob sua administração por quase 6 ano. Sua liderança era marcada por rigor e determinação, características que lhe renderam o título de “linha-dura” tanto entre os detentos quanto entre os agentes penitenciários. O estilo firme da diretora se refletia em suas decisões mais polêmicas, ainda que algumas delas contrariassem a Justiça. Em agosto de 2000, Sidneya vetou a transferência de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, para um presídio de segurança intermediária, mesmo após autorização judicial. A diretora alegou que a transferência não seria adequada e sua avaliação foi decisiva para impedir a mudança. Ela também ordenou revistas mais rigorosas nas celas, cortou privilégios dos presos e aumentou a fiscalização sobre advogados em visita aos detentos – uma medida que expôs tentativas de corrupção interna, como agentes cobrando propinas para permitir regalias, entrada de armas e celulares.

Por volta dos anos 2000, Sidneya já era alvo de conspirações. Em conversas com o padre Bruno Trombetta, coordenador da Pastoral Penal da Arquidiocese do Rio de Janeiro, a diretora relatou receber ameaças de morte há pelo menos 2 meses antes de ser assassinada, embora não tenha detalhado a origem dessas ameaças. Sidneya morava na Ilha do Governador com seu pai e o filho adolescente, e, mesmo ciente do risco, permaneceu firme em sua postura de enfrentamento às facções criminosas. O clima de tensão dentro e fora de Bangu I refletia o poder das organizações criminosas na cidade. Sidneya enfrentava figuras notórias como Uê, Marcinho VP e Fernandinho Beira-Mar.

Sidneya buscava limitar a entrada de drogas, armas e celulares e coibir o tráfico de informações e regalias dentro do presídio. Em resposta ao seu trabalho atento, em 4 de setembro de 2000, Sidneya foi assassinada quando chegava de carro ao edifício onde morava. Testemunhas relataram que um carro preto aguardava sua chegada e que ela foi alvejada com tiros na cabeça e no pescoço. O crime teve indícios de ligação com presos de Bangu I e agentes penitenciários da unidade, configurando uma retaliação direta à sua gestão rigorosa.

O assassinato de Sidneya se inseriu em uma série de execuções de diretores e subdiretores de presídios no Rio de Janeiro, como os casos de Wagner Vasconcellos da Rocha, Abel Silvério de Aguiar e José Roberto do Amaral Lourenço, refletindo a perigosa convergência entre crime organizado e sistema prisional. A Justiça reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de Sidneya, condenando o governo do Rio a indenizar sua família em R$ 1,3 milhão – valor dividido entre o filho Carlos Max Santos Cruz e o espólio do marido. Reflexo de sua história, em 2004 a Deputada Denise Frossard requereu a criação da Subcomissão Especial no âmbito da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, com a finalidade de acompanhar os processos relativos a crimes ocorridos no Estado do Rio de Janeiro, no período de 1999 a 2004, em razão de balas perdidas e dos confrontos de rua entre policiais e o crime, bem como para apurar a responsabilidade pelos crimes ocorridos em razão de falhas na administração do Complexo Penitenciário de Bangu. Em sua justificative, a deputada relembrou o assassinato de Sidneya.

Sidneya Santos de Jesus se escreveu na história do Rio e do Brasil como símbolo de coragem e ética profissional. Sua trajetória evidencia não apenas a vulnerabilidade do sistema penitenciário, mas também a força e determinação de mulheres que desafiam estruturas violentas para preservar a justiça e a segurança dentro de um ambiente marcado por risco extremo. Apesar de seu pioneirismo e de sua contribuição ao combate ao crime organizado, nota-se que Sidneya teve seu nome apagado, sem que qualquer homenagem póstuma tenha sido localizada para a redação deste texto. Neste sentido, mais que oportuno mantermos sua trajetória viva, assim como a de inúmeras outras mulheres.

Texto produzido por: Emilson Gomes Junior

Palavras-Chave/TAG: #pioneira #pioneirismo #mulheresnegras #criminalidade #direitopenal #carcere #mulheres #trabalhadoras #crimeorganizado #diretoradepresidio

REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: Mulheres Negras do Brasil 9788574582252 – DOKUMEN.PUB. Acesso em 08 dez 2022.

  • Sites:

Assassinato de diretora é investigado. Londrina: Folha de Londrina, 5 de setembro de 2000. Disponível em: Assassinato de diretora é investigado. Acesso em 30 out 2025.

CASTRO, Juliana. Diretor de Bangu 3 é assassinado no Rio de Janeiro; sete funcionários do presídio foram mortos desde 2000. Rio de Janeiro: UOL, 16 de outubro de 2008. Disponível em: Diretor de Bangu 3 é assassinado no Rio de Janeiro; sete funcionários do presídio foram mortos desde 2000 – 16/10/2008 – UOL Notícias. Acesso em 30 out 2025.

Cerca de 60 tiros atingiram carro do diretor de Bangu 3, diz perícia. G1, Gazeta do Povo, 16 de outubro de 2008. Disponível em: Cerca de 60 tiros atingiram carro do diretor de Bangu 3, diz perícia. Acesso em 30 out 2025.

Diretora do presídio Bangu I é enterrada. Diário do Grande ABC, 5 de setembro de 2000. Disponível em: Diretora do presídio Bangu I é enterrada – 05/09/2000 | Diário do Grande ABC. Acesso em 30 out 2025.

Diretora era tida como linha-dura. São Paulo: Folha de S. Paulo, 6 de setembro de 2000. Disponível em: Folha de S.Paulo – Diretora era tida como linha – dura. Acesso em 30 out 2025.

Família da ex-diretora do Bangu que foi morta é indenizada. ConJur, 17 de novembro de 2005. Disponível em: Família de ex-diretora do Bangu recebe R$ 600 mil. Acesso em 30 out 2025.

OAB-RJ e polícia apuram envolvimento de advogados traficantes. ConJur, 8 de outubro de 2000. Disponível em: OAB-RJ e polícia apuram envolvimento com traficantes. Acesso em 30 out 2025.

OTÁVIO, Chivo; BIASETTO, Daniel. Investigações revelam redes de corrupção e tráfico nas cadeias.O Globo, 25 de marõ de 2018. Disponível em: Investigações revelam redes de corrupção e tráfico nas cadeias – Jornal O Globo. Acesso em 30 out 2025.

Relembre outras mortes de diretores de presídios no Rio. Rio de Janeiro: Extra, 16 de outubro de 2008. Disponível em: Relembre outras mortes de diretores de presídios no Rio. Acesso em 30 out 2025.

Requerimento de criação de subcomissão. Rio de Janeiro: Câmara dos Deputados. Disponível em: Microsoft Word – Temp5.DOC. Acesso em 30 out 2025.

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