• Francilene Gomes Fernandes (1980 –2024)

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Doutora em Assistência Social, professora, servidora pública e ativista contra a violência de Estado

Chamada carinhosamente de Fran, a paulista Francilene Gomes Fernandes, nascida em 17 de janeiro de 1980, foi uma comprometida ativista do movimento Mães de Maio, composto por familiares e amigos de vítimas da violência do Estado, que nasceu em São Paulo, após os chamados Crimes de Maio de 2006, quando agentes do Estado assassinaram centenas de pessoas.  

Antes, porém, a pesquisadora e ativista já havia testemunhado a violência familiar quando, em 1990, vivenciou o assassinato da sua irmã Juliana Gomes Fernandes por forças militares.  Francilene transformou seu luto em luta, pois teve que encarar mais um brutal assassinato na família, em 2006, dessa vez contra seu irmão Paulo Alexandre Gomes, com 23 anos, levando Fran a somar esforços às mães e famílias que enfrentaram a mesma dor. Os episódios que ficaram conhecidos como crimes de maio caracterizados pela morte de 59 agentes públicos e 505 civis, principalmente jovens negros, afro-indígenas e pobres. O episódio genocida, indiscriminado, ocorreu principalmente na região da Baixada Santista. Segundo a PMSP, esta seria uma resposta aos ataques do PCC – Primeiro Comando Central, que supostamente assassinou 59 agentes públicos.

Segundo o Sindsep – Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo, Fran foi uma assistente social dedicada e servidora pública que defendeu incansavelmente a vida, a justiça e os direitos humanos. O Sinsep revela: “Mesmo com o desafio de equilibrar seu tempo entre família, amigos e militância, ela nunca hesitou em se envolver em causas que buscavam a justiça social, impactando não só o Brasil, mas também outros lugares.” De fato, podemos refletir que Fran, assim como suas companheiras Mães de Maio, viviam uma tripla jornada: a jornada de trabalho formal; a jornada de trabalho dedicado à família e a militância onde buscava justiça, assim como honrar a memória de seu irmão e demais vítimas.

Sua passagem pela Direção do – Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS-SP) foi marcada pela persistência em fortalecer a profissão e suas lutas, sempre enfrentando os desafios com resiliência. O Sindsep também teve a sensibilidade de falar sobre um período difícil da vida de Francilene. Quando estava internada, a brilhante Fran escreveu a obra Tecendo Resistências – Trincheiras contra a violência policial para a obtenção de título de Mestra em Serviço Social. A obra, inclusive, é publicada e está disponível para compra em diversos sites. No prefácio da obra, a Profa. Dra. Graziela Acquaviva, da PUC-SP – Pontifícia Universidade de São Paulo expõe que a militante e pesquisadora Fran “procurou dar visibilidade política fundamentada nas análises e reflexões teóricas da teoria social crítica, demonstrando as raízes autoritárias do Estado, via Polícia, a subversão de gênero destas mulheres, assim como a opção ética e política de mídias alternativas em manter um jornalismo comprometido com os Direitos Humanos, e de enfrentamento e superação da violência estrutural, estatal, institucional, produzida e reproduzida de forma incessante e densa nos territórios esquecidos/abandonados/isolados, intencionalmente, pelo Estado.”

A Sagacidade de Fran é refletida em sua carreira, especialmente na pesquisa. Formada em Serviço Social pela PUC-SP em 2007, se tornou doutora em Serviço Social através da PUC-SP com a obra Movimentos Sociais e Mídias Alternativas no Enfrentamento à Violência Policial. Profissionalmente, Fran foi coordenadora do CRAS – Centro de Referência de Assistência Social da cidade de São Paulo por 2 anos. Fran também coordenou o CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social de Guaianases por igual período, e atuou na Coordenadoria de Proteção Especial da SMADS – Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo entre 2015 e 2018. Fran se tornou referência para o CREAS, especialmente no atendimento a crianças vítimas de violência e exploração sexual. Destaca-se que Francilene ainda atuou como perita social no Juizado Federal de São Paulo. Por fim, devemos pontuar que Fran se especializou em Serviço Social na UniCastelo e FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas até 2018, atuando a partir de agosto de 2018 como docente no curso de Serviço Social da Anhanguera. Em sua carreira, ministrou disciplinas de Ética no Serviço Social e Direitos Humanos.

Fran faleceu após uma longa luta contra o câncer em 28 de setembro de 2024. Sobre sua partida, Débora Maria Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio, se disse consternada, afirmando que a partida de Fran é mais uma vida perdida para o Estado, uma vez que jamais houve promoção de justiça à Fran e às demais vítimas dos crimes cometidos pelo Estado: “É lamentável a gente enterrar uma jovem tão comprometida com as causas sociais dessa forma. Nós perdemos uma militante, uma guerreira, uma pessoa muito comprometida, que deixa um legado.”

O legado de Fran é perceptível, pois nunca temeu ao se posicionar contra a violência policial, como em 2021, quando afirmou: “piorou muito essa conduta racista e classista da engrenagem que a violência tem.” Anos antes, em 2006, Francilene e outras incansáveis ativistas Mães de Maio publicara o livro Do luto à luta – Mães de Maio, contendo relatos de mães, poesias e contribuições sobre a luta pelos direitos humanos. Segundo a OAB-ES – Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Espírito Santo: “O livro reúne textos de mães e familiares: “Débora Maria (mãe de Edson Rogério), Ednalva Santos (mãe de Marcos), Vera de Freitas (mãe de Mateus), Francisco Gomes (pai de Paulo), Francilene Gomes (irmã de Paulo), Ângela Moraes (mãe de Murilo), Rita de Cássia (mãe de Rogério) e Flávia Gonzaga (mãe de Marcos Paulo). Da mesma forma em que Francilene atuou com as Mães de Maio em 2011, quando cobraram explicações sobre assassinatos de jovens em Santos, seu legado perdurará através das próximas ações das Mães de Maio, considerando que sua sensibilidade e seu ativismo reverberarão em todas as ações das Mães de Maio e nas lutas contra a violência estatal.

Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

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REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

FERNANDES, Francilene Gomes. Tecendo Resistências – Trincheiras contra a violência policial. Disponível em TecendoResistencias.indd (metabooks.com). Acesso em 21 out 2024.

  • Sites:

BRITO, Gisele. Mães de Maio: a reação contra a violência do Estado. São Paulo: Brasil de Fato, 13 de maio de 2016. Disponível em: Mães de Maio: a reação contra a violência do Estado | Direitos Humanos (brasildefato.com.br). Acesso em 21 out 2024.

FERNANDES, Leonardo. Companheiros de luta dão adeus a Fran, militante do movimento Mães de Maio. Brasília, DF: Brasil de Fato, 29 de setembro de 2024. Disponível em: Companheiros de luta dão adeus a Fran, militante do | Direitos Humanos (brasildefato.com.br). Acesso em 21 out 2024.

FONTES, Elisa. Fran, das Mães de Maio: ‘piorou muito essa conduta racista e classista da engrenagem que a violência tem’. 30 de maio de 2021. Disponível em: Fran, das Mães de Maio: ‘piorou muito essa conduta racista e classista da engrenagem que a violência tem’ – Ponte Jornalismo. Acesso em 21 out 2024.

Fran, guerreira, vá em paz! Instagram, movimentomaesdemaio: São Paulo, 28 de setembro de 2024. Disponível em: Mães de Maio (@movimentomaesdemaio) • Fotos e vídeos do Instagram. Acesso em 21 out. 2024.

Fran, presente! Facebook, Sinsep São Paulo: São Paulo, 1 de outubro de 2024. Disponível em: Fran, presente! Francilene Gomes Fernandes,… – Sindsep São Paulo | Facebook. Acesso em 21 out 2024.

Francilene Gomes Fernandes. Escavador. Disponível em: Francilene Gomes Fernandes | Escavador. Acesso em 21 out 2024.

Livro Do luto à luta – Mães de Maio será lançado dia 16 na sede da OAB-ES. OAB-ES – Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Espírito Santo: Vitória, 2011. Disponível em: Livro Do luto à luta – Mães de Maio será lançado dia 16 na sede da OAB-ES | Jusbrasil. Acesso em 21 out 2024.

Movimento Mães de Maio cobra explicação sobre assassinatos de jovens em Santos. São Paulo: Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 21 de novembro de 2011. Disponível em: Movimento Mães de Maio cobra explicação sobre assassinatos de jovens em Santos (al.sp.gov.br). Acesso em 21 out 2024.

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