• Diva Guimarães (1940 – 11 de novembro de 2024)

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Alfabetizadora, professora de Educação Física, ex-velocista e ex-jogadora de basquete.

Diva Guimarães nasceu no interior do Paraná, em contexto marcado pela pobreza e pelo racismo estrutural. Filha de uma trabalhadora que atuava como lavadeira — possivelmente também parteira — e neta de pessoas escravizadas, foi a primeira integrante de sua família a ter acesso à escola, experiência que marcaria profundamente sua trajetória e consciência política desde a infância.

Formou-se em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1965, e construiu uma longa carreira como educadora, atuando por décadas na alfabetização e na educação física, além de ter sido atleta — velocista e jogadora de basquete. Sua vida profissional foi atravessada pela convicção de que a educação era uma ferramenta fundamental de resistência ao racismo.

Como ela própria afirmou: “Fui a primeira pessoa da minha família a ter acesso à escola. Isso fez com que despertasse cedo para a minha condição. Minha mãe lavava roupa para outras pessoas em troca de material escolar. […] Se o branco é 100%, o negro tem que ser 1.000%. Tem que estar muito acima para se igualar. A saída é essa: ler, estudar muito para conseguir driblar a situação.”

Embora sua atuação na educação tenha sido extensa e consistente, Dona Diva tornou-se nacionalmente conhecida a partir de 2017, durante a 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na ocasião, ao ouvir a fala do ator Lázaro Ramos em uma mesa da Flipinha, cujo tema era A pele que habito, Diva pediu a palavra e compartilhou, de forma contundente e sensível, sua experiência de vida marcada pelo racismo.

Seu depoimento, amplamente difundido nas redes sociais, foi assistido por milhões de pessoas e transformou Dona Diva em uma referência pública do debate antirracista no Brasil. A força de sua fala levou-a a participar de programas de grande audiência, como o Encontro com Fátima Bernardes, ampliando ainda mais o alcance de sua denúncia.

Durante seu relato, Diva Guimarães expôs histórias racistas que lhe foram contadas desde a infância, entre elas um mito perverso sobre a origem da população negra, segundo o qual pessoas negras teriam sido “mal lavadas” por Deus, explicando a cor da pele. Ao resgatar essa narrativa, Dona Diva desmontou sua lógica racista ao afirmar que a própria resistência negra à escravidão e à violência colonial é prova de sua falsidade: se pessoas negras fossem “preguiçosas” ou “inferiores”, não teriam sobrevivido nem construído as bases da sociedade brasileira.

Pesquisas como as de Flávio Raimundo Giarola demonstram que versões dessa mesma narrativa circularam na imprensa brasileira do século XIX, associando racismo, religião e desumanização. Essas histórias, reiteradas ao longo do tempo, revelam o esforço sistemático da sociedade branca em produzir justificativas simbólicas para a exploração e a violência, negando humanidade a descendentes de algumas das mais antigas civilizações do mundo.

Dona Diva também refletiu sobre o impacto profundo do racismo em sua vida pessoal. Mulher negra, neta de pessoas escravizadas, afirmou que a dor vivida desde a infância foi tamanha que optou por não se casar nem ter filhos, numa tentativa de protegê-los do racismo que sabia que enfrentariam. Essa dor, no entanto, jamais a silenciou.

Ao comentar sua participação na Flip, afirmou, em entrevista ao El País, que sentiu a necessidade de falar ao ouvir homenagens a autores como Lima Barreto, ao escutar reflexões de Edmilson Pereira e ao conhecer a história da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, sobrevivente do genocídio em seu país. Sua fala encerrou-se com uma frase que sintetiza sua trajetória de resistência: “Eu venci.”

A morte de Dona Diva, em novembro de 2024, gerou inúmeras homenagens de artistas, instituições culturais, educacionais e governamentais, reconhecendo sua contribuição decisiva para o enfrentamento do racismo no Brasil. Dentre as homenagens, destaca-se a de Lázaro Ramos: “Até o final, a sua presença me ensinou alguma coisa, como, por exemplo, a importância da amizade. Ver suas amigas com a senhora, lhe apoiando, te levando alegria e conforto até o fim, foi emocionante demais.” Sua vida permanece como legado de coragem, lucidez e compromisso com a memória, a educação e a luta antirracista.

Texto: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher

Palavras-chave: #racismo #antirracismo #educação #flip #literatura #memória #mulheresnegras

REFERÊNCIAS:

  • Produções acadêmicas:

GIAROLA, Flávio Raimundo. O “demônio negro”: o negro como maligno nas representações religiosas e raciais da imprensa de São João del-Rei (1871-1889). Juiz de Fora: Locus, v. 24, nº 2, p. 413 a 429, 2018. Disponível em: Vista do O “demônio negro”: o negro como maligno nas representações religiosas e raciais da imprensa de São João del-Rei (1871-1889) | Locus: Revista de História. Acesso em 9 fev 2025.

SCHUMAHER, Schuma; VITAL, Érico. Dicionário Mulheres do Brasil, de 1500 até a atualidade: biográfico e ilustrado. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

  • Sites

Diva Guimarães comenta depoimento emocionante na FLIP 2017. Globoplay. Disponível em: Encontro com Fátima Bernardes | Diva Guimarães comenta depoimento emocionante na FLIP 2017 | Globoplay. Acesso em 9 fev 2025.

Diva Guimarães, professora que comoveu a Flip ao falar de racismo, morre aos 85 anos em Curitiba. Curitiba: G1, 12 de janeiro de 2025. Disponível em: Diva Guimarães, professora que comoveu a Flip ao falar de racismo, morre aos 85 anos em Curitiba | Paraná | G1. Acesso em 9 fev. 2025.

Diva Guimarães: o legado de quem ousou sobreviver. IFPR – Instituto Federal do Paraná, 13 de janeiro de 2025. Disponível em: Diva Guimarães: o legado de quem ousou sobreviver – Instituto Federal do Paraná. Acesso em 9 fev 2025.

kikomascarenhas. Instagram, 12 de janeiro de 2025. Disponível em: Kiko Mascarenhas | Dona Diva Guimarães 💫 Alfabetizadora e professora de educação física aposentada após 40 anos de trabalho, ex-velocista e ex-jogadora de… | Instagram. Acesso em 9 fev 2025.

MARQUES, Maria. Morre Diva Guimarães, professora aplaudida de pé na Flip após fala sobre racismo: ‘Obrigada pelos ensinamentos’, reconhece Lázaro Ramos. Salvador: Alô Alô Bahia, 12 de janeiro de 2025. Disponível em: Morre Diva Guimarães, professora aplaudida de pé na Flip após fala sobre racismo: ‘Obrigada pelos ensinamentos’, reconhece Lázaro Ramos | Alô Alô Bahia. Acesso em 8 fev 2025.

MATIAS, Alexandre. Diva Guimarães (1940-2025). Trabalho Sujo, 12 de janeiro de 2025. Disponível em: Diva Guimarães (1940-2025) – Trabalho Sujo. Acesso em 9 fev 2025.

Morre a educadora Diva Guimarães, que deu depoimento marcante contra o racismo na Flip. Carta Capital, 13 de janeiro de 2025. Disponível em: Morre a educadora Diva Guimarães, que deu depoimento marcante contra o racismo na Flip – Sociedade – CartaCapital. Acesso em 9 fev. 2025.

Morre Diva Guimarães, educadora negra que emocionou a Flip em 2017 com fala antirracista. Rio de Janeiro: O Globo, 12 de janeiro de 2025. Disponível em: Morre Diva Guimarães, educadora negra que emocionou a Flip em 2017 com fala antirracista. Acesso em 9 fev 2025.

NIKLAS, Jan. Flip: professora negra emociona Lázaro Ramos em debate sobre racismo. O Globo, 28 de julho de 2017. Disponível em: Flip: professora negra emociona Lázaro Ramos em debate sobre racismo – Jornal O Globo. Acesso em 9 fev 2025.

Nota de Pesar: Diva Guimarães. Brasília, DF: Ministério da Cultura, 13 de janeiro de 2025. Disponível em: Nota de Pesar: Diva Guimarães — Ministério da Cultura. Acesso em 9 fev 2025.

OLIVEIRA, André de. A voz de Diva para esconjurar o racismo. Paraty: El País, 30 de julho de 2017. Disponível em: Flip 2017: A voz de Diva para esconjurar o racismo | Cultura | EL PAÍS Brasil. Acesso em 9 fev 2025.

TORRES, Bolívar. Diva Guimarães: ‘As pessoas nem acreditavam que existia racismo’. O Globo, 10 de setembro de 2017. Disponível em: Diva Guimarães: ‘As pessoas nem acreditavam que existia racismo’ – Jornal O Globo. Acesso em 9 fev 2025.

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