Em 1886, a cidade norte-americana de Chicago foi palco de uma intensa repressão policial contra trabalhadores que reivindicavam melhores condições de trabalho, especialmente a redução da jornada para oito horas diárias. O episódio resultou em mortos e presos, tornando-se um marco simbólico das lutas operárias em todo o mundo. Em memória desses acontecimentos, o 1º de maio foi instituído como o Dia do Trabalho, para assinalar e lembrar as duras e persistentes lutas por direitos que marcaram a história das relações de trabalho.
No Brasil, a data é celebrada desde 1895 e foi instituída como feriado nacional em setembro de 1925, por decreto do presidente Artur Bernardes. Durante a chamada Primeira República, o 1º de maio consolidou-se como um momento de reivindicação e de demonstração da força dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em diversas cidades do país. Nesse período, lideranças do movimento operário promoviam comícios para difundir suas ideias e organizavam boicotes e greves, enfrentando patrões e forças policiais. Eram tempos em que as jornadas de trabalho frequentemente ultrapassavam dez horas diárias, e as principais reivindicações incluíam a redução da jornada, a abolição do trabalho infantil (que atingia crianças a partir de seis anos) e a proteção ao trabalho das mulheres.
Outro período marcante na história do 1º de maio no Brasil foi o do Estado Novo, especialmente a partir de 1939, quando a data passou a ser celebrada no estádio de São Januário, do Club de Regatas Vasco da Gama, com a presença do presidente Getúlio Vargas. Nessas ocasiões, além de seus discursos, Vargas anunciava medidas de seu governo voltadas à classe trabalhadora. O salário mínimo, a criação da Justiça do Trabalho e a Consolidação das Leis do Trabalho são exemplos expressivos dessas iniciativas, frequentemente apresentadas de forma ritualizada a um público mobilizado, quase sempre precedidas pelo emblemático chamamento: “Trabalhadores do Brasil!”.
Durante os governos militares, por sua vez, foi preciso recorrer a estratégias para driblar a repressão e transformar a data em um espaço de resistência, com protestos, piquetes e passeatas. Para além das reivindicações por direitos e melhores salários, as mobilizações também expressavam a defesa da redemocratização do país.
Atualmente, o Dia do Trabalho tem sido marcado por celebrações populares organizadas por centrais sindicais, com desfiles, shows e outras atividades públicas. Essa mudança, longe de ser apenas superficial, alterou significativamente o sentido e as formas de mobilização associadas à data, revelando novas dinâmicas de organização e expressão dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil.
Uma antiga e persistente reivindicação do movimento sindical brasileiro — a redução da jornada de trabalho — voltou ao centro do debate público, impulsionada, entre outros fatores, pela proposta de superação da escala 6×1. A pauta, encampada por diferentes setores e também pela deputada federal Erika Hilton, tem mobilizado trabalhadores e trabalhadoras em diversas regiões do país em defesa da adoção da escala 5×2 e da redução da jornada para 40 horas semanais.
O debate ganha especial relevância quando observado sob a perspectiva de gênero. Dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados, quase o dobro do tempo dedicado pelos homens (11,7 horas). Entre mulheres pretas e pardas, essa carga é ainda maior, superando em média 1,6 hora semanal a das mulheres brancas. Esses dados evidenciam a centralidade da redução da jornada como medida estratégica para enfrentar desigualdades estruturais, ampliando o tempo disponível para o cuidado de si, a formação, a participação social e a autonomia econômica.
Estudos acadêmicos, como os desenvolvidos pela Universidade Estadual de Campinas, indicam que a redução da jornada pode gerar efeitos positivos mais amplos, como a criação de empregos, a ampliação da participação feminina no mercado formal, a redução do desemprego e impactos favoráveis sobre a sustentabilidade previdenciária. Além disso, análises divulgadas pela Rede Brasileira de Economia Feminista (Rebef) apontam que jornadas mais curtas tendem a estimular uma maior participação masculina nas tarefas domésticas e de cuidado.
Nesse sentido, a redução da jornada de trabalho se afirma não apenas como uma pauta histórica do mundo do trabalho, mas como uma agenda contemporânea de justiça social, igualdade de gênero e reorganização das dinâmicas de cuidado. Trata-se de uma medida que articula direitos, qualidade de vida e desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que recoloca no centro do debate a necessidade de construir condições mais equilibradas e sustentáveis para a vida de trabalhadores e trabalhadoras.
O 1º de maio reafirma que os direitos do trabalho são fruto de luta e não de concessão. A aprovação da chamada PEC das Domésticas, que equipara os direitos das trabalhadoras domésticas aos dos demais trabalhadores, representa um passo histórico na reparação de uma dívida estrutural da sociedade brasileira, profundamente marcada por heranças escravocratas. Não é coincidência que essa conquista incida sobre uma categoria majoritariamente composta por mulheres negras: enfrentar essa desigualdade é enfrentar o próprio alicerce das injustiças no país. Avançar nos direitos do trabalho é, portanto, avançar na construção de um Brasil mais justo, onde nenhuma forma de trabalho seja invisibilizada, precarizada ou tratada como menor.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #diadotrabalho #escala6x1 #erikahilton #sobrecarga #desigualdade #mulheres #trabalhadoras
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
Impactos da jornada reduzida: um olhar feminista sobre o trabalho e uso do tempo. Rebef – Rede Brasileira de Economia Feminista, Unicamp – Universidade de Campinas, 2024. Disponível em: Impactos da jornada reduzida: um olhar feminista sobre o trabalho e uso do tempo – Notícias – Comissão de Pesquisa do Instituto de Economia. Acesso em 29 abr 2026.
- Sites:
ACCARINI, André. Mês da Mulher: fim da escala 6×1 é estratégico para enfrentar a sobrecarga feminina. CUT – Central Única dos Trabalhadores, 4 de março de 2026. Disponível em: Mês da Mulher: fim da escala 6×1 é estratégico para enfrentar a sobrecarga feminina – CUT – Central Única dos Trabalhadores. Acesso em 2 jan 2026.
ALBUQUERQUE, Flávia. Fim da escala 6×1 é principal bandeira nos atos do 1° de Maio no país. São Paulo: Agência Brasil, 29 de abril de 2026. Disponível em: Fim da escala 6×1 é principal bandeira nos atos do 1° de Maio no país | Agência Brasil. Acesso em 29 abr 2026.
BARBOSA, Alexandre. Trabalhadora doméstica: desigualdades marcam realidade de 5,6 milhões no Brasil. TVT News, 27 de abril de 2026. Disponível em: Trabalhadora doméstica: desigualdades marcam realidade de 5,6 milhões. Acesso em 29 abr 2026.
ODARA, Cris; JUNIOR, Emilson Gomes; SCHUMAHER, Schuma. 27 de abril – Dia de Luta das Trabalhadoras Domésticas. Rio de Janeiro: Memória Feminista Antirracista. Disponível em: 27 de abril – Dia de Luta das Trabalhadoras Domésticas – Memória Feminista Antirracista. Acesso em 29 abr 2026.