• O desafio da invisibilidade dos lesbocídios no Brasil: quando o silêncio perpetua e reforça as violências.

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Lili Brum[1]

O Mês do Orgulho LGBTQIA+ – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queer, Intersexo e Assexuais – é celebrado todos os anos em junho em memória da Revolta de Stonewall, ocorrida em 1969, em Manhattan. Considerado um marco para o movimento LGBTQIA+ nos Estados Unidos, o episódio teve entre suas protagonistas a mulher lésbica Stormé DeLarverie.

Segundo a página The American Blackstory, Stormé percorria as ruas de Nova York como uma verdadeira guardiã da comunidade LGBTQIA+. Em tradução livre, a página relata: “Conhecida por suas patrulhas no bairro – e por sua licença para porte de arma – Stormé não tolerava ‘feiura’ [violência] em sua comunidade.” Naquela noite, ao tentar proteger suas “crianças” da brutalidade policial, foi agredida com um golpe de cassetete no rosto. Poucas semanas depois, tornou-se integrante fundadora e Chefe de Segurança da Associação de Veteranos da Rebelião de Stonewall.

No Brasil, o Ferro’s Bar marcou a luta das mulheres lésbicas. Inaugurado ainda em 1961 no Bixiga, São Paulo, começou como uma pizzaria boêmia, mas logo se transformou em um dos principais pontos de encontro das mulheres sáficas. A partir de 1967, tornou-se refúgio e espaço de resistência em plena ditadura militar. Nos anos 1980, foi palco de encontros de integrantes do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) e da circulação do boletim Chanacomchana, primeira publicação lésbica do país. O momento mais marcante ocorreu em 19 de agosto de 1983, quando militantes, lideradas por Rosely Roth, protestaram contra a proibição da venda do boletim dentro do bar, episódio conhecido como o Stonewall Lésbico Brasileiro e que deu origem ao Dia Nacional do Orgulho Lésbico.[2] O Ferro’s Bar seguiu como símbolo de memória e resistência até seu fechamento em 1999, permanecendo como um marco da luta pela visibilidade e pelos direitos das lésbicas no Brasil.

Quase quatro décadas depois, a luta pela visibilidade permanece urgente. O movimento de mulheres lésbicas no Brasil tem uma trajetória marcada pela luta contra o preconceito, a invisibilidade e pela afirmação de suas existências. Desde os anos 1980, coletivos e grupos feministas passaram a incluir a pauta lésbica em suas agendas, denunciando tanto a lesbofobia quanto o apagamento dentro dos próprios movimentos de mulheres e LGBTQIPNA+. Essas militâncias se organizaram em encontros nacionais e regionais, criaram redes de apoio e memória, e passaram a registrar casos de violência específicos contra mulheres que amam mulheres — como o lesbocídio, conceito que surge justamente para nomear e dar visibilidade às mortes motivadas por ódio à condição lésbica. O Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil (2014–2017) mostra como essa luta se traduz em pesquisa, denúncia e reivindicação de políticas públicas, destacando que “o combate ao lesbocídio se evidencia como muito importante […] pelo número de mortes evitáveis decorrentes de crimes de ódio lesbocida no Brasil” (p. 21). 

O Dossiê mostra ainda que, embora os assassinatos de mulheres venham sendo progressivamente contabilizados como feminicídios, raramente se identifica quando a vítima era lésbica. Essa ausência de informação apaga a especificidade da lesbofobia como motivação dos crimes e reforça o que o documento chama de “lesbofobia institucional e invisibilidade lésbica” (Peres, Soares e Dias. 2018, p. 21). 

Conforme registra a Agência Patrícia Galvão, a precariedade das informações disponíveis na mídia levou o Dossiê sobre Lesbocídio a iniciar sua série histórica em 2014, reunindo apenas casos passíveis de validação. Desde então, os registros cresceram significativamente: enquanto em 2014 havia apenas um caso identificado, em 2023 foram contabilizados 14 lesbocídios, um aumento de 1.400%. 

A pergunta que permanece é inquietante: estamos diante de um aumento efetivo dos assassinatos de mulheres lésbicas ou apenas começamos a enxergar melhor um fenômeno historicamente ocultado? 

O Sistema de Alertas Nacional sobre Feminicídio – SANF 

O projeto Mapa Georreferenciado do Feminicídio no Brasil – SANF, desenvolvido pela REDEH em 2026, surgiu com o objetivo reunir, sistematizar e disponibilizar informações sobre feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios noticiados em portais de notícias online, dados produzidos por feministas e ativistas da luta pelo fim da violência contra mulheres. Com a proposta de sensibilizar a sociedade e denunciar que, por trás de cada 

número, há uma vida ceifada, uma história interrompida, esse monitoramento contínuo permite identificar e visibilizar padrões territoriais dos feminicídios e produzir evidências que fortalecem o debate público, a luta pelo fim das violências contra as mulheres e subsidiar políticas de prevenção e enfrentamento. 

No entanto, como já apontado pelo Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil (2014–2017), há uma ausência sistemática de informações sobre a orientação sexual das vítimas. Durante esses meses de garimpo de informações nas redes sociais e em jornais virtuais, os números encontrados não batem com a realidade enfrentada por mulheres lésbicas e bissexuais no país, confirmando o que já se sabe. Até o momento o Mapa Georreferenciado do sistema SANF conta apenas com quatro lesbocídios em 2026, três em 2025 e um em 2024. O que seria comemorável se fosse real, porém a realidade que se desvenda e confirma é que quando uma mulher lésbica é assassinada, sua identidade raramente aparece nos registros oficiais ou nas notícias, o que apaga a especificidade da violência lesbofóbica. 

Tal silêncio reforça a invisibilidade e mulheres lésbicas, como denuncia o SANF, acabam desaparecendo em estatísticas gerais de feminicídio, sem que se reconheça que muitas dessas mortes são motivadas por ódio à condição lésbica. 

De fato, sem o registro dessa informação o lesbocídio permanece oculto, dificultando a formulação de políticas específicas e perpetuando a marginalização das lésbicas. Como reforça o Dossiê, a falta de dados sobre lesbofobia é mais um aspecto que denuncia o preconceito institucional, o que tem sérias consequências: impede a formulação de políticas públicas específicas de prevenção, dificulta a construção de memória coletiva das vítimas e reforça a marginalização das lésbicas na sociedade. 

Assim como no Ferro’s Bar as mulheres lésbicas continuam lutando contra o silenciamento e o apagamento até mesmo na hora da morte. E isso se reflete também nos registros sobre violências. Portanto, discutir a invisibilidade das lésbicas nos registros de feminicídio e na cobertura midiática é fundamental para evidenciar que não se trata apenas de violência de gênero, mas também de violência contra uma orientação sexual específica. Tornar o lesbocídio visível é um passo essencial para garantir justiça, memória e políticas de proteção às vidas de mulheres lésbicas no Brasil. 

A partir dos dados presentes até o momento no SANF queremos contribuir para lançar luz sobre essa contradição persistente: embora mulheres lésbicas desempenhem papel decisivo na construção das lutas por diversidade sexual e de gênero, seguem expostas a 

inúmeras formas de violências invisibilizadas, cujo desfecho extremo é o lesbocídio. Enfrentar essa realidade exige enfrentamento ao preconceito, produção de conhecimento e políticas públicas específicas. Como afirma Maria Esteves, ativista do Coletivo Lesbo Amazônicas: “É importante trazer essa visibilidade, mostrar porque nós existimos, que esses casos estão acontecendo aqui.” Somente tornando essas violências visíveis será possível formular respostas efetivas para proteger mulheres lésbicas e impedir que o lesbocídio continue sendo uma tragédia silenciada. 

Palavras-Chave/TAG: #mesdoorgulho #lgbtqia+ #ativismo #feminicidio #lesbocidio #mulheres #diversidade #Senalesbi

REFERÊNCIAS:

PERES, Milena Cristina Carneiro; SOARES, Suane Felippe; DIAS, Maria Clara. Dossiê sobre lesbocídio no Brasil: de 2014 até 2017. Rio de Janeiro: Livros Ilimitados, 2018.

SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRASIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Senac Editora: Rio de Janeiro, 2006. Acesso em 08 dez 2022.

Casal de mulheres é vítima de lesbocídio em Remanso (BA); ex-companheiro de uma delas é o principal suspeito. Revista Afirmativa, 5 de janeiro d2 2026. Disponível em: Casal de mulheres é vítima de lesbocídio em Remanso (BA); ex-companheiro de uma delas é o principal suspeito – Revista Afirmativa. Acesso em 10 jun 2026.

DAY 5 — Stormé DeLarverie. The American Blackstory, fevereiro de 2025. Disponível em: DAY 5 — Stormé DeLarverie | THE AMERICAN BLACKSTORY. Acesso em 10 jun 2026.

Homem é condenado a 27 anos de prisão por matar Ana Caroline, jovem que teve a pele do rosto, couro cabeludo e olhos arrancados no MA. São Luís: G1, 6 de novembro de 2025. Disponível em: Caso Ana Caroline: homem é condenado a 27 anos por matar jovem no MA | G1. Acesso em 10 jan 2026.

Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender Pride Month. Library of Congress. Disponível em: About | Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender Pride Month | Library of Congress. Acesso em 10 jun 2026.

Mapa Feminicídios no Brasil. Rio de Janeiro: Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano. Disponível em: Alerta Feminicídio | REDEH. Acesso em 10 jun 2026.

Nota de pesar e solidariedade diante do brutal assassinato de Micaela Leite e Kacymara Dias. Brasília, DF: Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTAIQ+, 6 de janeiro de 2026. Disponível em: Governo Federal – Participa + Brasil – Nota de pesar e solidariedade diante do brutal assassinato de Micaela Leite e Kacymara Dias. Acessoe m 10 jun 2026.


[1] Ativista feminista antirracista da Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB, integrante da Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano onde compõe a equipe do SANF – Sistema de Alertas Nacional sobre Feminicídios: https://www.redeh.org.br/sanf

[2] Embora o dia da Visibilidade Lésbica seja 29 de agosto, data que marca o 1º Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE, que aconteceu em 1996. A partir do ano de 2020 passou a se chamar SENALESBI.


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