Engenheira e militante feminista
Carmen Portinho foi uma figura emblemática e inspiradora da engenharia brasileira e da luta sufragista. Com coragem e determinação, a intelectual e militante feminista quebrou barreiras e abriu caminhos para as mulheres no Brasil. Sua trajetória é um testemunho de dedicação e compromisso com a transformação social. Nos anos 1920 e 1930, Carmen Portinho se destacou no movimento sufragista, ao lado de outras ativistas como Bertha Lutz, lutando pela conquista do voto feminino. Ela não se limitou às palavras, mas transformou sua luta em ações concretas sobrevoando a cidade do Rio de Janeiro, com suas companheiras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), para lançar panfletos que promoviam o sufrágio feminino, uma ousadia que exemplifica seu espírito inovador e destemido.
Nascida em 26 de janeiro de 1903, na cidade de Corumbá, Mato Grosso, se estabeleceu no Rio de Janeiro desde muito jovem. Na década de 1930, Carmen Portinho desempenhou um papel fundamental na criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), onde chegou a ser vice-presidente, e foi também uma das fundadoras da União Universitária Feminina. Sua luta pelo direito das mulheres ao voto não foi em vão, pois em 1932, por pressão das sufragistas, o presidente Getúlio Vargas assinou um decreto estendendo esse direito, ainda que de maneira restritiva num primeiro momento.
No livro Dicionário Mulheres do Brasil, Schuma Schumaher e Érico Vital Brazilrelatam que Carmen Portinho, formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil em 1926 e foi a terceira mulher a obter esse título no país. Sua trajetória profissional foi marcada por desafios, mas também por conquistas notáveis. Desde o início, enfrentou preconceitos e obstáculos impostos pelo patriarcado – mas sua competência e determinação não a deixaram recuar dos desafios impostos. Lembramos a sua experiência na Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Distrito Federal, onde, desafiando expectativas, provou sua capacidade ao subir em telhados e executar tarefas que muitos (erroneamente) consideravam impossíveis para uma mulher. Em 1937 ajudou a criar a Associação Brasileira das Engenheiras e Arquitetas e foi sua primeira presidente. Na ocasião a única entidade profissional de classe composta exclusivamente por mulheres.
Seu trabalho foi além das fronteiras nacionais. Carmen fez o primeiro curso de urbanismo do país e, com o apoio de uma bolsa do Conselho Britânico, estudou as reconstruções urbanas na Inglaterra, experiências que aplicou no Brasil ao propor e criar o Departamento de Habitação Popular. Projetos como o conjunto residencial Pedregulho, no Bairro de São Cristóvão e o conjunto habitacional da Gávea, ambos no Rio de Janeiro, são marcos de sua carreira. Os projetos também refletem o seu compromisso com a melhoria das condições de vida urbana.
O legado de Carmen Portinho não se restringe à engenharia e à arquitetura, alcançando também a educação e defesa dos direitos das mulheres. A convite do governador do estado do Rio de Janeiro Negrão de Lima, criou, em 1966, a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), uma experiência pioneira para a época, pois havia poucas escolas de desenho industrial no país. Em 1987, foi convidada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) a entregar ao presidente da Câmara dos Deputados, Ulisses Guimarães, ao lado de outras feministas, a Carta das Mulheres aos Constituintes, com propostas para a Constituição que estava sendo elaborada pelo Congresso Nacional.
Carmen Portinho não apenas pavimentou o caminho para futuras gerações de mulheres engenheiras e arquitetas, mas também deixou um legado duradouro de coragem, inovação e luta pela igualdade. Hoje, ao lembrar de sua vida e realizações, celebramos não apenas o impacto que ela teve em sua profissão, mas também o espírito indomável que inspirou e continuará a inspirar todos aquelas/es que buscam um mundo mais justo e igualitário.
Para reverenciar e conhecer mais a trajetória de Carmen Portinho recomendamos o vídeo Mulheres na arquitetura: Carmen Portinho, da Arqio – Arquitetura e Meio Ambiente, contando a sua história e relevância. Também recomendamos o vídeo Carmen Portinho e a Uerj | Programa Campus, da TV UERJ, que nos aponta: Carmen Portinho introduziu e ampliou o conceito de habitação popular no Brasil, um marco academicamente notável, dentre outros tantos de sua carreira.
Carmen Portinho faleceu aos 98 anos, no Rio de Janeiro, em 25 de julho de 2001. Décadas depois, o legislativo brasileiro decidiu homenageá-la. Por iniciativa do Senador Carlos Portinho, sobrinho-neto da engenheira e urbanista, foi aprovado o Projeto de Lei nº 14.477, de 15 de dezembro de 2022, no qual Carmen Velasco Portinho foi declarada Patrona do Urbanismo no Brasil.
Em agosto de 2023, a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas do Estado do Rio de Janeiro (ABEA-RJ) lançou o Prêmio Carmen Portinho, para homenagear vinte mulheres que fazem a diferença na engenharia e arquitetura para o avanço da sociedade e para o reconhecimento da importância da mulher na área profissional, social e política.
Além dessas homenagens, destaca-se a Série “Feministas, graças a Deus”! VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), apresentada pela Brasiliana Fotográfica.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #engenharia #urbanismo #ciencias #feminismo #classismo #sufragismo #berthalutz #habitacao #mulheres #história #academia #internacional
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
NASCIMENTO, Flávia Brito do. Carmen Portinho e o habitar moderno: teoria e trajetória de uma urbanista. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 9, nº 1: Presidente Prudente, 2007. Disponível em: Carmen Portinho e o habitar moderno: teoria e trajetória de uma urbanista | Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (anpur.org.br). Acesso em 22 ago 2024.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Dicionário Mulheres do Brasil, de 1500 até a atualidade: biográfico e ilustrado. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
- Sites:
Carmen Portinho e a Uerj | Programa Campus. YouTube, TV UERJ: Rio de Janeiro, 18 de setembro de 2019. Disponível em: Carmen Portinho e a Uerj | Programa Campus (youtube.com). Acesso em 22 ago 2024.
Lei nº 14.477, de 15 de dezembro de 2022. Brasília, DF, 15 de dezembro de 2022. Disponível em: L14477 (planalto.gov.br). Acesso em 22 ago 2024.
Mulheres na arquitetura: Carmen Portinho. YouTube, Arqio – Arquitetura e Meio Ambiente: 18 de maio de 2022. Disponível em: Mulheres na arquitetura: Carmen Portinho (youtube.com). Acesso em 22 ago 2024.
Projeto de Lei n° 1679, de 2022. Senado: Brasília, DF. Disponível em: PL 1679/2022 – Senado Federal. Acesso em 22 ago 2024.
Série “Feministas, graças a Deus”! VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001). Brasiliana Fotográfica: Rio de Janeiro, 6 de abril de 2021. Disponível em: Série “Feministas, graças a Deus”! VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001) | Brasiliana Fotográfica (bn.gov.br). Acesso em 22 ago 2024.