Arquiteta e designer que criou o orelhão
Chu Ming Silveira nasceu em 04 de abril de 1941, em Xangai, China. Foi a segunda dos quatro filhos do casal Chu Chen e Shui Young Queen. Seu pai, Chu Chen, era engenheiro civil e durante a guerra serviu às forças armadas nacionalistas. Com a vitória dos comunistas chineses, em 1949, a violenta perseguição e repressão aos opositores levaram-no a mudar-se com a família, primeiro para Hong Kong e, depois, em 1950, para o Brasil. Chu Ming tinha 09 anos de idade quando chegou em São Paulo onde passaram a residir.
Chu Ming formou-se em arquitetura na Universidade de Mackenzie em 1964. Um ano após a formatura montou escritório particular de Arquitetura e passou a desenvolver diversos projetos na área de Edificações. Em 1966, passou a trabalhar na CTB – Companhia Telefônica Brasileira, em São Paulo, na coordenação e desenvolvimento dos projetos de Centrais Telefônicas e Postos de Serviço, além de acompanhamento de obras. Chu Ming casou-se, em 1968, com o engenheiro paulista Clóvis Silveira, com quem teve dois filhos.
A talentosa arquiteta impactou profundamente o cotidiano brasileiro. Segundo a Arch Trends, Chu Ming trabalhava na CTB quando se debruçou sobre a construção de protetores para telefones públicos. Unindo funcionalidade, beleza e durabilidade, Chu Ming criativamente pensou em um ovo. Simples e acusticamente eficiente, os orelhões demonstram a sensibilidade e o olhar apurado para enxergar a realidade de sua época. Os primeiros protótipos, Chu I e Chu II, foram batizados em homenagem à designer pela própria companhia telefônica. Enquanto os protótipos, chamados orelhinhas, eram feitos de acrílico laranja para aumentar o campo de visão do usuário, o projeto final, o orelhão, foi feito de fibra de vidro, considerando também a sua durabilidade. Da orelhinha pro orelhão também mudou a localização: as orelhinhas foram instaladas em locais fechados como estabelecimentos comerciais e repartições públicas; os orelhões foram instalados em locais públicos, acessíveis a todos, marcando a paisagem daquela época.
A quem se interessar, há página em homenagem ao orelhão, a Orelhão Arq. Outro tributo ao legado de Chu Ming foi realizada por ABERTO 3, uma plataforma de exposições itinerantes, realizadas em espaços inusitados – fora do circuito tradicional de museus e galerias que homenageou Chu Ming e Tomie Ohtake. Com o projeto, pôde-se visitar a casa das formidáveis arquitetas. Importante destacar que a própria casa da Chu Ming é um de seus grandes projetos arquitetônicos. A Arch Trends revela: “É uma obra diferenciada, sem fundações clássicas, elaborada com sapatas corridas, paredes e coberturas em concreto. Estas, em vez de serem horizontais, são inclinadas e funcionam como grandes calhas para a água da chuva. Não há paredes paralelas, de modo que a acústica interna dos ambientes é perfeita. O concreto das paredes foi moldado com tábuas de pinho horizontais, que marcam seus nós, imprimindo uma textura especial. Resumidamente, a casa é térrea, distribuída em ambientes com níveis diferentes, que acompanham o desnível do terreno. A obra utilizou, como materiais de construção, apenas concreto aparente, tábuas de madeira nos pisos, vidros pivotantes fumê de segurança, pouquíssima alvenaria, portas de metal e aço inoxidável nos nichos.”
Além de sua icônica casa, Chu Ming projetou diversas residências brutalistas, como é chamada a estética ousada e impiedosa, caracterizada pelo uso de concreto bruto e aparente, em São Paulo. Não se engane, porém, quem pense que ela parou por aí. Ela inventou o estilo pós-caiçara ao desenvolver projetos de residências em Ilhabela, município de São Sebastião, no litoral de São Paulo. As sofisticadas residências é um símbolo de arquitetura sustentável: apoiada em grandes rochas, as construções de granito, alvenaria, concreto e madeira de maçaranduba utilizam pinho de riga que vem da demolição de residências clássicas de São Paulo. Ou seja, se utiliza elementos da natureza, da região, de forma simples e integrativa. Destaca-se que as casas foram projetadas com base no conhecimento de Feng Shui de Chu Ming. Em reverência a toda a sua trajetória, a Google homenageou a arquiteta com um Doodle no dia 4 de abril de 2017, quando a intelectual completaria 76 anos. Mesmo jovem, notável que percorreu um bom caminho desde seu nascimento em Xangai, passando pela chegada no Brasil e pela sua inesquecível carreira como arquiteta.
Chu Ming morreu no dia 18 de junho de 1997, em São Paulo, aos 56 anos. Apesar de tão pouco tempo trabalhando neste plano, devemos comemorar as 3 décadas de atuação desta gênia que iluminou a arquitetura brasileira.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #arquitetura #urbanismo #paisagismo #feminismo #historia #arte #mulheres #orelhão
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
VULIBRUN, Jorge. Uma leitura filosófica de termos chineses utilizados no I Ching. Florianópolis: Revista de Ciências Humanas, n° 39, p. 37 a 66, abril de 2006. Disponível em: Uma leitura filosófica de termos chineses utilizados no I Ching | Revista de Ciências Humanas (ufsc.br). Acesso em 29 out 2024.
- Sites
5 mulheres pioneiras que desenharam a história da arquitetura no Brasil. FTC MAG, 26 de agosto de 2024. Disponível em: 5 mulheres pioneiras que desenharam a história da arquitetura no Brasil – FTCMag (followthecolours.com.br). Acesso em 26 out 2024.
ABERTO3 homenageia Tomie Ohtake, Chu Ming Silveira, e suas icônicas casas modernistas. Revista Projeto, 14 de agosto de 2024. Disponível em: ABERTO3 homenageia Tomie Ohtake, Chu Ming Silveira, e suas icônicas casas modernistas – Revista PROJETO. Acesso em 29 out 2024.
ABERTO3 | TOMIE OHTAKE E CHU MING SILVEIRA. São Paulo: 11 de agosto a 6 de outubro de 2024. Disponível em: ABERTO. Acesso em 29 out 2024.
Chu Ming. Arquivo Arq. Disponível em: Chu Ming | Arquivo Arq. Acesso em 29 out 2024.
Chu Ming Silveira, a inventora do orelhão, vira Doodle. El País, 4 de abril de 2017. Disponível em: Chu Ming Silveira, a inventora do orelhão, vira Doodle | Tecnologia | EL PAÍS Brasil (elpais.com). Acesso em 29 out 2024.
Chu Ming Silveira: conheça a arquiteta que criou o orelhão. Arch Trends, 18 de junho de 2021. Disponível em: Chu Ming Silveira: a arquiteta que criou o orelhão (archtrends.com). Acesso em 29 out 2024.
Conheça a casa de CHU MING SILVEIRA, a arquiteta que projetou o orelhão. Instagram, asminadahistoria: 10 de agosto de 2024. Disponível em: As Mina Na História | Conheça a casa de CHU MING SILVEIRA, a arquiteta que projetou o orelhão Apesar de ter caído em desuso, os orelhões foram telefones… | Instagram. Acesso em 29 out 2024.
Orelhão Arq. Disponível em: Site oficial do Orelhão e de sua inventora Chu Ming Silveira (orelhao.arq.br). Acesso em 29 out 2024.
SOUZA, Eduardo. Chu Ming Silveira: A arquiteta por trás do projeto do orelhão. Arch Daily, 23 de fevereiro de 2020. Disponível em: Chu Ming Silveira: A arquiteta por trás do projeto do orelhão | ArchDaily Brasil. Acesso em 29 out 2024.