• Marina Montini (1948 – 2006)

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12 de setembro de 2023 por 

Sambista, modelo e atriz.

Marina Montini foi uma das mais célebres sambistas da história do Rio de Janeiro. A artista performática também foi notória por sua carreira de modelo internacional, bem como por sua atuação no cinema brasileiro. Nascida em 10 de janeiro de 1948, ficou conhecida especialmente por ter sido a musa inspiradora do pintor Emiliano Di Cavalcanti. Foi através da relação construída com ele que sua carreira alcançou patamares inéditos para mulheres negras brasileiras. Conforme exposto por Gabriela Ordones Penna em Que mulata é essa? As ilustrações de Alceu Penna para o show Brasil Export (1972), Marina chamou a atenção do pintor Di Cavalcanti nas páginas da revista Manchete na década de 1960. A autora revela que Marina teria se tornado a musa de Di Cavalcanti, posando para o artista diariamente entre 1969 e 1976.

Gabriela Ordones Penna também revela que Marina Montini “aprendeu a desfilar após ser escolhida Miss Renascença e Miss Guanabara, tendo então sido convidada para ser modelo da Bloch Editores.” A autora expõe que Marina Montini é um dos poucos casos de mulheres sambistas – popularmente conhecidas como “mulatas do samba”, dentre outros nomes – que se tornaram conhecidas. A autora relembra que havia a seguinte mudança de paradigma à época: o conceito das vedetes brancas estava se desvanecendo, enquanto as mulheres negras do mundo do samba estavam recebendo mais projeção no meio artístico dos anos 1960 e 1970.

Abelardo Figueiredo foi diversas vezes contratado por produtores de eventos da época para a realização de espetáculos, especialmente “shows tipo exportação”. A autora revela que tais espetáculos sucederam o formato do teatro de revista. Nos shows tipo exportação, a sensualidade e a erotização dos corpos femininos negros eram o foco. Através de tais espetáculos surge o termo “mulata tipo exportação”, descrevendo as mulheres objeto de desejo dos espectadores. Vale ressaltar que tal demonstra a hiperssexualização e a desumanização de tais mulheres sob o olhar masculino. Inclusive, não é à toa que apenas Marina Montini e algumas outras se tornaram conhecidas desde a época: para a sociedade artística, tais dançarinas eram meros objetos de desejo, não merecendo mais atenção do que a objetificação sofrida nos shows e nos bastidores.

A despeito das lógicas racistas daquele segmento de mercado, Marina Montini percorreu uma trajetória brilhante. A exemplo, como já mencionado, Marina foi modelo de Di Cavalcanti. Neste sentido, Lucinéia Aparecida Falcão Almeida em “Imagens que falam” – educando alunos através de visualidades artísticas menciona a relevância da obra de Di Cavalcanti. Segundo a autora: “Di Cavalcanti retratou a mulher em várias obras, entre estas: ‘Cinco moças de Guaratinguetá’ (1930); ‘Mulheres com frutas’ (1932); ‘Família na praia’ (1935); ‘Mulheres protestando’ (1941). Nestas, demonstrou a mulher em diversas situações sociais e também em pura exposição da beleza e sensualidade. Carlos Drummond Andrade fez até um poema em homenagem a Di Cavalcanti e exaltando também a mulher nas obras de Cavalcanti”. Marina Montini é retratada na obra apresentada como Figura 2 do artigo, de 1969.

Ninguém melhor para falar sobre Marina Montini do que a própria. Neste sentido, citamos a modelo na reportagem Catedral de bronze, da sequência Auto Retrato: “Acontece que sou Marina Montini, a primeira top model brasileira a cruzar o mundo com o privilégio do aval desse verdadeiro pai chamado Emiliano Di Cavalcanti. Foi para ele que posei durante anos, musa involuntária de um esteta maravilhoso, boêmio, artista nato, que me ensinou a comer caviar e beber champanhe, mesmo que meu prato favorito ainda seja o filé acebolado com fritas do Lamas, aquele do Largo do Machado. Di Cavalcanti se encantou pela morena retratada em fotos das revistas de Adolpho Bloch. Não posso me esquecer desse tempo de pequenos voos, ao lado de profissionais como Justino Martins. Junto com Di, conheci Vinicius e Tom Jobim. Vinicius acabava de construir uma casa em Salvador e me deu cópia do projeto com dedicatória: ‘Para Marina: Paris tem a catedral de Notre Dame, nós temos a nossa catedral – Marina Montini’.”

Na mesma reportagem, Marina revela que sua jornada não foi fácil. Enquanto uma jovem negra carioca circulando na elite mundial da moda e das artes, a modelo sofreu com barreiras culturais, socioeconômicas e linguísticas. Ainda assim, foi vitoriosa em sua trajetória. Segundo a artista: “Difícil para uma jovem ser adotada por personagem tão elevado – além de ser modelo, ganhar concurso de beleza, ser miss com mamãe a tiracolo, participar de 15 filmes, um dos quais inscrito no Festival de Veneza (Pecado Mortal, de Miguel de Faria) e virar manequim da Dijon, de Yves Saint Laurent e Gianni Versace. Me recordo das gafes incríveis ao ingressar nesse mundo de etiqueta e mesuras. Em certo restaurante, em Lyon, na França, o chef veio me propor um canard (pato) à moda da casa. Entendi canário e aceitei na hora, porque vivia de dieta para manter as medidas. O canard era um monstro, que não devolvi de vergonha. Mas hoje devolvo tudo, insultos, gente chata, amigos que cerceiam a minha liberdade. Acho que a palavra-chave na minha vida sempre foi liberdade e não posso nem a atribuir a tanta gente famosa que frequentei, com quem convivi e até amei. Devo isso, quem sabe, à Dora Montini, mãezona protetora, mas libertária, costureira de mão cheia com quem aprendi a vestir os primeiros modelinhos para anos depois, desfilar os modelões da haute couture.”

A exemplo de sua fama no século XX, mencionamos que Marina Montini foi mencionada em enquete formulada pelo Intervalo questionando a astros daquele tempo: quem é a mais bela da televisão? A vencedora foi Glória Menezes, com 8 votos. Ainda assim, Marina Montini foi mencionada nos votos do locutor Hílton Gomes, do cantor Fábio e do comediante Agildo Ribeiro – 3 votos. Neste sentido, mencionamos a postagem A Arte de Di Cavalcanti, do Portal Luis Nassif. Em seus comentários, usuários trocam informações e relembram a trajetória de Marina Montini e Di Cavalcanti.

Dentre os filmes estrelados por Marina Montini, destacamos Di-Glauber, do cineasta baiano Glauber Rocha, de 1977. Conforme exposto por Tetê Mattos no artigo Experimentalismo e Inventividade na Produção Documental de Glauber Rocha: “Os outros dois documentários são produções de 1977 da Embrafilme, que eu estou chamando de ‘filmes-homenagens’. Um deles, o Di-Glauber o cineasta ao receber a notícia da morte do pintor Di Cavalcanti filma de improviso o velório e o sepultamento do pintor. É um curta-metragem, de 16 minutos, experimental, e que tem até hoje a sua exibição proibida pela família do pintor sob a alegação que o curta denigre a imagem de Di Cavalcanti.” 

Tetê Mattos reflete que é possível encontrar “atos-falhos” do cineasta em Di-Glauber que podem ser interpretados como uma ironia provocadora. Neste sentido, a autora demonstra tal recurso artístico na cena em que Marina Montini atua: “A ironia também está presente na trilha sonora que utiliza humor nas músicas escolhidas: na sequência da aparição de Marina Montini, mulata inspiradora de Di Cavalcanti, a provocação se dá ao som de “O teu cabelo não nega”, composição atribuída a Lamartine Babo, que trata da vergonha da população negra, e do preconceito, e da condição de Terceiro Mundo.” Além dos filmes Pecado Mortal e Di-Glauber supramencionados, Marina Montini também atuou nas seguintes obras, segundo a página AdoroCinema: (i) Vinte passos para a morte, de 1970, dirigido por Adolpho Chandler; (ii) Os Paqueras, de 1969, dirigido por Reginaldo Faria; e (iii) Parafernália, o Dia da Caça, de 1968, dirigido por Francis Palmeira.

Marina Montini faleceu em 20 de março de 2006, de insuficiência hepática. Segundo a reportagem Marina Montini, a musa de Di Cavalcanti, morre aos 58 anos, do jornal Tribuna, a atriz sofria de cirrose, tendo sido internada na manhã de domingo, 19, no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), sentindo fortes dores. A reportagem relembra a presença da musa no velório de Di Cavalcanti, para quem havia posado durante 7 anos: “De turbante preto, óculos escuros e vestida de branco, aparece, chorando muito, no velório de Di, no Museu de Arte Moderna, do Rio. A cena correu mundo no documentário que Glauber filmou sem autorização da família do morto. ‘Di de Glauber’ foi interditado para exibições no País, mas ganhou a Palma de Ouro do curta-metragem no Festival de Cannes e ostenta a fama de ser uma dupla súmula artística – do pintor e do cineasta.” À época de seu falecimento, Marina Montini morava no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro, com uma amiga. Faleceu viúva, sem filhos. Seu corpo foi enterrado no cemitério São João Batista, em Botafogo.

Elaborado por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher

Palavras-Chave/TAG: #samba #carnaval #mulatatipoexportação #racismo #moda #hautecouture #dança #cinema #misoginia #feminismo #dicavalcanti

REFERÊNCIAS

  • Produções acadêmicas:

ALMEIDA, Lucinéia Aparecida Falcão. IMAGENS QUE FALAM” − EDUCANDO ALUNOS ATRAVÉS DE VISUALIDADES ARTÍSTICAS. Universidade Aberta Do Brasil – UAB: Acrelândia, 2013. Disponível em: [PDF] UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL UAB UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA UnB INSTITUTO DE ARTES IdA DEPARTAMENTO DE ARTES VISUAIS VIS – Free Download PDF (silo.tips) Acessado em 31 out 2022

MATTOS, Tetê. EXPERIMENTALISMO E INVENTIVIDADE NA PRODUÇÃO DOCUMENTAL DE GLAUBER ROCHA. VI Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – ENECULT: Salvador, 2010. Disponível em: EXPERIMENTALISMO E INVENTIVIDADE NA PRODUÇÃO DOCUMENTAL DE GLAU (ufba.br) Acessado em 31 out 2022

PENNA, Gabriela Ordones. Que mulata é essa? As ilustrações de Alceu Penna para o show Brasil Export (1972). Revista dObra[s], dossiê: imagens da moda e do vestuário: São Paulo, 2016. Disponível em: Que mulata é essa? As ilustrações de Alceu Penna para o show Brasil Export (1972) | dObra[s] – revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda (emnuvens.com.br) Acessado em 31 out 2022

  • Sites:

AdoroCinema. MARINA MONTINI. Disponível em: Marina Montini – AdoroCinema Acessado em 31 out 2022

Intervalo. Tarcísio votou e Glória Ganhou. São Paulo. Disponível em: per109835_1969_00332.pdf (bn.br) Acessado em 31 out 2022

Jornal Tribuna. Marina Montini, a musa de Di Cavalcanti, morre aos 58 anos. Agência Estado: São Paulo, 2006. Disponível em: Marina Montini, a musa de Di Cavalcanti, morre aos 58 anos | Notícias | Tribuna do Paraná (uol.com.br) Acessado em 31 out 2022

Portal Luis Nassif. A ARTE DE DI CAVALCANTI. 2009. Disponível em: A ARTE DE DI CAVALCANTI – Portal Luis Nassif (ning.com) Acessado em 31 out 2022

  • Jornais:

Marina Montini. Catedral de bronze. Auto Retrato.

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