Escritora, poetisa, doceira e política
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu em Goiás Velho, antiga capital do estado de Goiás, em 20 de agosto de 1889, filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro I, e de dona Jacyntha Luiza do Couto Brandão. Segundo Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil em Dicionário Mulheres do Brasil, a melhor lembrança que guardava da infância eram as pequenas temporadas passadas na fazenda do avô, a poucos quilômetros da cidade. Desde cedo criticava, porém, o tratamento que as crianças recebiam no seu tempo de menina: “Criança, no meu tempo de criança, não valia mesmo nada. A gente grande da casa usava e abusava de pretensos direitos de educação.” Importa lembrar que alguns pesquisadores descrevem a primeira metade do século XX como a segunda fase do desenvolvimento do tratamento dado pelo Estado às crianças e aos adolescentes. Na primeira, entre os séculos XVI e XIX, crianças e adolescentes eram reconhecidos como “bichinhos de estimação”, enquanto na segunda fase eram consideradas como “objetos” de tutela do Estado. Somente partir da segunda metade do século XX é que se passou a reconhecer melhor a humanidade e integridade das crianças e adolescentes no Brasil e no mundo – algo que Cora Coralina sempre defendeu.
Ainda jovem, interessou-se por poesia e romances. Lia tudo o que lhe chegava às mãos, apesar da oposição da família, que acreditava que moça romântica não se casava. Em entrevista que deu em 1985, pouco antes de morrer, Cora recordou: “Diziam que em casa de romântica, quando o marido chega, o fogão está apagado, cinzento, o feijão cru, esturricado na panela, o menino está sujo, a casa por varrer. E ela está lá, declamando Fagundes Varela, lendo Guerra Junqueiro.” Ainda assim, começou a escrever, aos 14 anos, pequenos poemas, ou “escritinhos”, como ela dizia. Romântica e eternamente otimista, Cora escandalizou a cidade ao fugir com o namorado. Aos 21 anos apaixonara-se pelo novo delegado de polícia da cidade de Goiás, o Doutor Cantídio, 22 anos mais velho que ela, ainda casado e pai de uma filha de outra união. Diante da oposição da família, fugiu em lombo de burro para a cidade de Jaboticabal, no estado de São Paulo. Quando a mulher dele morreu, casaram-se. Teve seis filhos: Paraguassu, Eneas, Cantídio, Jacinta, Isis e Vicência. Dois deles não sobreviveram: Eneas e Isis. Enquanto viveram no interior de São Paulo, Cora manteve sempre viva a lembrança de sua terra natal, através dos poemas que escrevia. No poema “Minha cidade”, por exemplo, diz: “Goiás, minha cidade, / Eu sou aquela amorosa/ De tuas ruas estreitas, / Curtas, / Indecisas, / Entrando, / Saindo, uma das outras (…).”
Seu marido morreu em 1934 e, Cora precisou reinventar uma saída para sustentar os filhos: tornou-se doceira além de vendedora de livros. Em 1936, muda-se para Andradina (SP), onde começa a escrever para o jornal da cidade. Aos 52 anos, em 1951, Cora Coralina também se candidatou ao cargo de vereadora pela União Democrática Nacional, na cidade de Andradina. Apesar de não ter vencido, notável que Cora Coralina tenha sido uma das poucas mulheres que tiveram a coragem e a viabilidade de se candidatar a cargos políticos eletivos. Não venceu, mas de fato marcou aquele estado. Sua presença ainda hoje é percebida na política, como através da entrega da Comenda Ordem do Mérito Cora Coralina da Prefeitura de Goiás, entre outras comendas. Sem dúvidas, Cora Coralina alcançou voos para muito além da literatura, influenciando na política institucional brasileira, servindo de exemplo para inúmeras personalidades que se dedicam pela defesa institucional dos Direitos Humanos no país.
Retornou definitivamente para Goiás Velho, em 1956, onde produziu a maior parte de sua obra e onde era conhecida de todos como Tia Tó. Foi viver às margens do rio Vermelho, em um grande e antigo sobrado sempre de portas abertas: turistas, vizinhos e muitas crianças entravam e saíam quando queriam. Já nos anos 1960 começou a ter seu talento reconhecido também fora dos limites de sua cidade.
Publicou seu primeiro livro aos 76 anos, em 1965 o livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, que teve acima de 10 edições nos anos seguintes. Nele destaca-se o “Poema do milho”, uma brilhante exaltação da natureza, e “Poema da vida”, que diz: “Vive dentro de mim/ A mulher do povo/ Bem proletária/ Bem linguaruda/ Desabusada/ Sem preconceitos/ De casca-grossa/ De chinelinha/ E filharada.”
Aos 70 anos, com problemas financeiros, decidiu fazer doces de frutas para vender; foi doceira por 14 anos. Orgulhosa e satisfeita com o que fazia, dizia que seus doces “eram os melhores que podiam ser feitos no Brasil”. De caráter igualmente doce, tinha orgulho de jamais ter escrito para se lamentar da vida. Preferia, ao invés, louvar as coisas da terra e sua gente. Afirmou em uma entrevista em 1985: “Meus versos têm o cheiro dos currais, da terra, têm o som livre do berrante. É água corrente, é tronco, é fronde, é folha, é semente, é vida.” Ainda na década de 1980 passou a se corresponder com o poeta Carlos Drummond de Andrade, que admirava seu talento, a qualidade de seu caráter e a considerava uma mulher de espírito independente e livre. Partilhavam o gosto pela vida no interior. Foi homenageada no Festival Nacional de Mulheres nas Artes e recebeu o título de doutora honoris causa, concedido pela Universidade Federal de Goiás. Em 1983, recebeu da União Brasileira de Escritores o título de Intelectual do Ano e o troféu Juca Pato, tendo sido a primeira mulher a ser agraciada com eles. Aos 94 anos, admitia estar vivendo o melhor tempo de sua vida graças à coragem de contar suas meias-verdades, pois sempre repetia que ninguém conta verdades inteiras: “Temos três medos. Medo dos mortos, medo dos vivos e medo de nós mesmos.” Faleceu em Goiânia em 10 de abril de 1985, vítima de insuficiência respiratória. Cora deixou uma descendência de quatro filhos, 15 netos e 29 bisnetos. Na pedra do seu túmulo está escrito o seguinte verso, que ela havia deixado pronto: “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos.”.
Importante lembrarmos que Cora Coralina era patronesse de diversas instituições, como a Biblioteca Popular Municipal Cora Coralina. Ela também ocupa a cadeira 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, a cadeira 17 da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos, a cadeira 46 da Academia Virtual de Letras do Grupo Intenção & Gestos e a cadeira 36 da Academia de Letras da Grande São Paulo. Cora Coralina também é homenageada através de uma escola e de uma creche em Campo Grande, bairro do Rio de Janeiro, dando nome a estas instituições que educam e tocam tantos jovens corações, bem no espírito do que a vida de Cora Coralina significa. Além disso, a Flig – Feira Literária de Goiás decidiu homenagear a escritora em sua primeira edição, em 2014.
Por fim, podemos lembrar que Cora Coralina teve sua casa na cidade de Goiás Velho, transformada em um Museu – o que é uma bela experiência imersiva de sua obra, na medida em que parte significativa de seus trabalhos foi inspirado em Goiás. Assim, aqueles que quiserem podem visitar esta casa silenciosa que tanto lembra a vida de Cora Coralina: simples e, ao mesmo tempo, gigante; calma e, ao mesmo tempo, fervilhando de vida. Para conhecermos mais sobre sua doce e intrigante vida, recomenda-se o documentário Cora Coralina – Todas as Vidas. São 75 minutos emocionantes sobre esta formidável intelectual, nos levando a uma viagem sobre sua genialidade e sensibilidade.
Texto Adaptado do verbete contido no Dicionário Mulheres do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.
Palavras-Chave/TAG: #literatura #culinaria #cinema #goias #historia #letras #politica
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
LIMA, Renata Mantovani de; POLI, Leonardo Macedo; JOSÉ, Fernanda São. A Evolução Histórica dos Direitos da Criança e do Adolescente: a significância jurídica e social ao reconhecimento de direitos e garantias fundamentais. Brasília: Revista Brasileira de Políticas Públicas, v. 7, n° 2, p. 313 a 329, 2017. Disponível em: A-Evolucao-Historica-dos-Direitos-da-Crianca.pdf . Acesso em 30 jan 2025.
SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Dicionário Mulheres do Brasil, de 1500 até a atualidade: biográfico e ilustrado. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
- Sites
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ALTOÉ, Larissa. Escola e creche municipais têm nome em homenagem à poetisa Cora Coralina. Rio de Janeiro: MultiRio, 20 de agosto de 2019. Disponível em: Patronos das Escolas Municipais – Escola e creche municipais têm nome em homenagem à poetisa Cora Coralina. Acesso em 31 jan 2025.
Assista ao documentário Cora Coralina – Todas as Vidas. Vermelho, 10 de abril de 2020. Disponível em: Assista ao documentário Cora Coralina – Todas as Vidas – Vermelho. Acesso em 31 jan 2025.
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Câmara concede título de Cidadã Penapolense para Cora Coralina. Câmara Municipal de Penápolis, 4 de março de 2021. Disponível em: Câmara concede título de Cidadã…. Acesso em 31 jan 2025.
Cora Coralina. AFCLAS – Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos. Disponível em: Cora Coralina – AFCLAS. Acesso em 31 jan 2025.
Cora Coralina. Aflag – Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Disponível em: Acadêmicas – Cora Coralina. Acesso em 31 jan 2025.
Cora Coralina. Museu Casa de Cora Coralina. Disponível em: Museu CORA CORALINA. Acesso em 31 jan 2025.
Falta 1 semana para a Flig 2024 que vai homenagear a escritora Cora Coralina. UFG – Universidade Federal de Goiás, 24 de setembro de 2024. Disponível em: Falta 1 semana para a Flig 2024 que vai homenagear a escritora Cora Coralina | UFG – Universidade Federal de Goiás. Acesso em 31 jan 2025.
Homenagem: deputada Bia de Lima recebe Comenda Cora Coralina na Cidade de Goiás. Deputada Bia de Lima, 24 de janeirode 2025. Disponível em: Homenagem: deputada Bia de Lima recebe Comenda Cora Coralina na Cidade de Goiás – Deputada Bia de Lima. Acesso em 31 jan 2025.