Cantora, percussionista e atriz
Denise Assumpção, bisneta de escravizados angolanos, nasceu na cidade de Tietê, interior paulista, em 05 de dezembro de 1956, numa família de dois irmãos, Itamar e Narciso. Foi uma artista conhecida por sua voz e genial presença nos palcos. Mudou-se com a família para a cidade paranaense de Arapongas, onde, ao lado dos jovens irmãos, passou a frequentar as sessões e a tocar atabaques no terreiro de umbanda. É possível observar que os irmãos desenvolveram o amor pela arte musical neste momento, apaixonados pela música afrobrasileira do terreiro. Por 3 vezes na semana os irmãos acompanhavam o pai, Januário, no terreiro de Arapongas, aprofundando suas relações com a espiritualidade, a ancestralidade e a musicalidade negras. Inclusive, possível refletir que a vivência das artes pelos irmãos se assemelhava à própria experiência de Januário, envolvido com a religiosidade de matriz africana. Nos termos de Itamar Assunção, comparando a profissão do pai com sua missão pessoal no terreiro: “Meu pai sempre fez daquilo a missão dele. A missão dele não era trabalhar no IBC (Instituto Brasileiro do Café). Acho que talento é isso, alguém que tem uma missão.” Se garra e talento são forjados e compartilhados na mesma família, o caso de Denise Assunção e seus irmãos é prova disso. Os 3 irmãos diversas vezes se cruzaram em projetos musicais, especialmente durante o surgimento da Vanguarda Paulista, movimento que renovou a música brasileira nos anos 1980. Nesta década, Denise chegou a integrar a banda Isca de Polícia, fundada por seu irmão Itamar. Além do terreiro como influência musical e artística, ainda jovem, Narciso, o mais velho, foi participar do GRUTA – Grupo Universitário de Teatro de Arapongas, sob a direção geral de Nitis Jacon. Logo após levou seus irmãos consigo, de forma que passaram a ter mais um lugar para se desenvolver em conjunto, nas suas missões pessoais. O resto é história. Inclusive, parte desta história está preservada no Museu Itamar Assumpção – o primeiro museu virtual de um artista negro brasileiro, com um acervo de mais de 2.000 obras.
Na música, lançou seu álbum solo A Maior Bandeira Brasileira em 1990. Segundo o Museu Mazzaropi, este álbum é “um testemunho do seu talento musical exuberante”. O Museu relembra que a última apresentação de Denise Assunção, em 25 de novembro de 2023, foi um tribuno emocionante a grandes nomes da música brasileira: no Sesc Guarulhos, a artista apresentou o show Relembrança, trazendo canções de gigantes como Noel Rosa, Cartola, Bob Marley e seu irmão Itamar Assunção, inclusive recitando poesia de Mário de Andrade. Para além de cantora, Denise brilhava no teatro, na TV e no cinema. Ligada à vanguarda nas artes cênicas paulistas, integrou companhias dramatúrgicas fantásticas como o Teatro Oficina, orquestrado por José Celso Martinez. No cinema, participou de filmes memoráveis de Amásio Mazzaropi, como A Banda das Velhas Virgens e Jeca e Seu Filho Preto. Já na televisão, atuou em produções como Hoje é Dia de Maria, da TV Globo.
Em homenagem a Denise Assunção, o Teatro Oficina Uzona Uzyna publicou texto no Instagram relembrando que Denise Assunção foi cocriadora da tradução e versão brasileira das seguintes obras, nos seguintes anos: (i) Bacantes, (i.a) em 1987, (i.b) entre 1995 e 1997, (i.c) em 2001, na gravação de um DVD, e (i.d) em 2017, como participação especial; (ii) Ham-let, (ii.a) em 1993, e (ii.b) em 2015), (iii) e Cacilda!, entre 1999 e 2001, na gravação de um DVD. O Teatro Oficina Uzona Uzyna emociona ao exaltar Denise Assunção em sua enorme qualidade artística: “adorada dos deuses, grande dama, felina fera, feiticeira do teatro brasileiro, da música brasileira, das palavras bem ditas y colocadas, da boa boca pra cantar o ritmo de tudo o que importa, artista da maior grandeza do panteão paulistano-planetário – do teatro oficina você é fundamento!”
Apesar de seu notável impacto na arte e na cultura paulistanas e brasileiras, Denise Assunção faleceu sem a devida notoriedade. A escritora Cidinha da Silva, refletindo sobre a indomável e indestrutível artista, compartilhou as indagações de Lena Roque sobre o tema: “E se Denise fosse midiática? Seria reverenciada? E se fosse possível ter domado-enquadrado-formatado Denise? Haveria mil e um ‘posts chorando’ sua partida? E se Denise tivesse sido premiada, bajulada, cortejada? Seria sua passagem lamentada em rede nacional? E se fosse rica? E se não fosse ‘fora da curva’? E se não fosse ‘endoidecida’? Endoidecidos milionários internacionais são ‘excêntricos’, né? E se tivesse tido filhos, propriedades, espólios, pensão, herança? E se não fosse preta, em uma época que preto não tava na moda? E se fosse possível SER uma preta-louca-genial-acima da média-iluminada em um país-mundo que SÓ sabe lidar com o óbvio-prosaico-medíocre?” Considerando que Lena é “também uma atriz negra insurgente, combatente, persistente na invenção cotidiana da arte e na autoprodução para garantir condições dignas de trabalho para si e para as parcerias”, nas palavras de Cidinha da Silva, podemos vislumbrar a profundidade desta análise, posto que este relato reflete não apenas a trajetória de Denise Assunção, como também de inúmeras mulheres negras da história brasileira. Neste sentido, sobre a compreensão de mulheres negras sobre suas irmãs, Cidinha afirma: “Aliás, quando forem escrever biografias sobre a Denise Assunção, tratem de entrevistar a Penha, cabeleireira afro do velho Bixiga, com quem a Denise abria o coração sobre questões que, provavelmente, não compartilhava com as amizades brancas. Sim, várias dessas pessoas acolhiam sua genialidade, devem ter dado força para que ela conseguisse trabalhos e não sucumbisse à dor dos limites impostos a uma mulher negra que não se curva, mas, de certo, não alcançavam a ação destruidora do racismo sobre uma artista genial como ela. Coisa que nós, gente negra alvo do racismo, compreendemos numa troca de olhar. Esse país dói muito porque nos aniquila, a todas nós que não nos comportamos como o esperado e recusamos as caixas de contenção.” Diante de tamanhas perguntas e constatações, devemos nos agarrar à luta antirracista, que se estende desde a defesa dos direitos à memória e à verdade sobre os horrores da escravidão, da colonialidade e dos racismos moderno e contemporâneo até a proteção de vida digna e igualdade material entre pessoas de todas as cores, etnias, gêneros, sexualidades, religiosidades e mais. Afinal, isto significa exaltar a história de Denise, Itamar e Narciso quanto exaltar a luta de suas e seus bisavós e bisavôs contra a escravidão, quando dela ainda eram vítimas; isto também significa buscar notoriedade, empregabilidade e boas remunerações a pessoas pretas de todas as indústrias e todos os caminhos de vida, inclusive da arte.
Texto escrito por: Emilson Gomes Junior
Palavras-Chave/TAG: #musica #arte #cinema #tv #história #racismo #vanguardapaulista
REFERÊNCIAS:
- Produções acadêmicas:
BASTOS, Maria Clara. Processos de Composição e Expressão na Obra de Itamar Assumpção. São Paulo, maio de 2012. Disponível em: (Microsoft Word – Disserta\347\343o Maria Clara Bastos-vers\343o final pdf). Acesso em 8 jan 2025.
- Sites
ALBERTO, Vagner Luis. DENISE ASSUNÇÃO: “Morena Não, Sou Preta”. Escritos de Vagner, 6 de fevereiro de 2024. Disponível em: Música – – escritosdevagner. Acesso em 8 jan 2024.
Denise Assunção: Homenagem à Vida e Legado de uma Artista Notável. Museu Mazzaropi, 8 de janeiro de 2024. Disponível em: Denise Assunção: Homenagem à Vida e Legado de uma Artista Notável – Museu Mazzaropi. Acesso em 8 jan 2025.
FERREIRA, Mauro. Denise Assunção, voz vanguardista da música e do teatro, sai de cena em São Paulo. G1: 4 de janeiro de 2024. Disponível em: Denise Assunção, voz vanguardista da música e do teatro, sai de cena em São Paulo | Blog do Mauro Ferreira | G1. Acesso em 8 de janeiro de 2025.
SILVA, Cidinha. Denise Assunção, artista indomável e indestrutível. São Paulo:Rascunho, 12 de janeiro de 2024. Disponível em: Denise Assunção, artista indomável e indestrutível – Rascunho. Acesso em 8 jan 2025.
MENEZES, Maria Eugenia de. Crítica: ‘As Criadas’ subverte Jean Genet sem trair seu espírito. Estadão, 4 de agosto de 2017. Disponível em: Crítica: ‘As Criadas’ subverte Jean Genet sem trair seu espírito – Estadão. Acesso em 8 jan 2025.
oficinauzynauzona. Instagram, 4 de janeiro de 2025. Disponível em: Teatro Oficina Uzyna Uzona | 4 de janeiro 1 ano da ethernidade de Denise Assunção Divindade da nossa companhia Artista fundamental do Teatro Oficina VIVA! DENISE… | Instagram. Acesso em 8 jan 2025.
oficinauzynauzona. Instagram, 4 de dezembro de 2024. Disponível em: Instagram. Acesso em 8 jan 2025.