• Teresa do Quariterê (séc. XVIII)

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15 de maio de 2024 por 

Líder quilombola

Teresa do Quariterê, ou Teresa de Benguela, foi uma das líderes do Quilombo do Quariterê – também conhecido como Quilombo Grande e Quilombo do Piolho. Fundado aproximadamente na década de 1740 por José Piolho, foi comandado por Teresa após sua morte. Localizado no Vale do Guaporé, atual estado do Mato Grosso e sob os cuidados diretos de Teresa, por volta de 1750, o quilombo teria alcançado a população de 3.000 pessoas, incluindo africanos, bolivianos e brasileiros, refugiados dos impérios ibéricos. O Quilombo do Quariterê teria se tornado alvo da coroa portuguesa justamente em função de seu tamanho, tendo sido considerado ameaça à coroa portuguesa.

O local de nascimento de Teresa é controvertido, sendo indicado tanto Benguela, Angola, quanto o próprio Brasil. Segundo Schuma Schumaher e Érico Brazil, Teresa “Liderou um grupo de negros e índios instalados próximos a Cuiabá, não muito longe da fronteira de Mato Grosso com a atual Bolívia. Impôs tal organização a Quariterê, que o quilombo sobreviveu até 1770. […] Possuía teares com os quais fabricavam tecidos que eram comercializados fora dos quilombos, bem como os alimentos excedentes. Quariterê caracterizou-se pelo uso da forja, pois transformava em instrumentos de trabalho os ferros utilizados contra os negros”.

Conforme ensina a antropóloga Maria de Lourdes Bandeira, a forma de governo adotada pelo Quilombo do Quariterê foi a realeza. Teresa era a líder do quilombo à época do primeiro ataque bem sucedido da coroa portuguesa, em 1770. Conforme registros, teria sido observado pelos colonizadores que Teresa era a rainha do quilombo, sendo assistida por um parlamento, um capitão-mor e um conselheiro. Conforme exposto pela Comissão dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, o Anal de Vila Bela do ano de 1770 descreve que à época o quilombo já era governado “a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo”.

Telmary Kazmierczak Luiz explicita que o Quilombo de Quariterê foi um dos quilombos mais organizados e duradouros da região do Mato Grosso, palco da formação de quilombos durante os séculos XVIII e XIX. O quilombo teria relevante atividade agricultora, realizando plantações de milho, feijão, mandioca, amendoim, batata, cará e outros tubérculos, além de banana, abacaxi, fumo e algodão. Ainda, no quilombo também se confeccionava tecidos de algodão e criavam galinhas.

Compreende-se que o quilombo comandado pela Rainha Teresa de Benguela foi excepcional em suas relações comerciais, bem como em relação a assegurar a pluralidade étnica apresentada pelo quilombo. Conforme Bruno Pinheiro Rodrigues explica, o Quilombo de Quariterê teria existido por dezenas de décadas e ganhado visibilidade em função de suas “complexas alianças e relações formadas tanto com aqueles que permaneciam no bojo da sociedade escravista – assenzalados ou contrabandistas – como com os próprios povos indígenas do extremo oeste das consideradas possessões portuguesas”. Similarmente, o autor reflete sobre as bem sucedidas relações mantidas entre descendentes dos diversos povos americanos e africanos presentes no quilombo. De todo modo, o fato de que o quilombo existiu por décadas demonstra que os processos de aculturação foram bem sucedidos o suficiente para ser considerado espaço seguro na percepção de integrantes de diversas nações indígenas brasileiras.

Vale notar que há registro de engajamento ativo de mulheres africanas e americanas no reinado de Teresa do Quariterê. Teresa Almeida Cruz apresenta o relato de Nogueira Coelho, provedor da Fazenda Real e Intendência do Ouro na Capitania de Matogrosso, que teria dito que o quilombo era governado por uma mulher “bem assistida de índias e negras”. Nos termos da autora: “Deste modo, um texto masculino nos descortina a ação de mulheres quilombolas que ousaram desafiar o sistema escravocrata português”. É notável o que a Rainha Teresa do Quariterê e outras mulheres realizaram através de décadas no quilombo, resistindo ao genocídio perpetrado pelo império português.

Após a primeira destruição física do quilombo em 1770, houve sua reorganização no mesmo local. Após 25 anos sem ataques, em 1795, o capitão-geral João de Albuquerque de Melo Pereira e cárceres “decidiu organizar uma expedição com duplo objetivo: realizar trabalhos de prospecção, no intuito de encontrar novas jazidas auríferas, uma vez que as lavras ao redor de Vila Bela estavam se esgotando e dar caça a escravos fugitivos, batendo os quilombos”, conforme ensina Luiza Rios Ricce Volpato. Após a captura dos habitantes do Quilombo do Quariterê, Teresa teria chamado atenção por sua cólera frente à violência colonial. Teresa cometeu suicídio logo depois. Conforme reflete Teresa Almeida Cruz, em 2013: “E a rainha Teresa não se rende à humilhação da destruição de seu quilombo, suicidando-se, como um gesto de revolta ao domínio dos brancos. Prefere morrer a curvar-se ao cativeiro. Pela sua coragem e ousadia, ela se tornou um símbolo da luta das mulheres negras no Brasil”.

Dentre as homenagens recebidas por Teresa de Benguela, menciona-se o enredo Teresa de Benguela, Uma Rainha Negra no Pantanal, desfilado pela Unidos do Viradouro no carnaval de 1994. Outra homenagem, mais recente, é a promulgação da Lei no. 12.987/2014, tornando o dia 25 de julho o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Na data também é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, estabelecido pela Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas junto à Organização das Nações Unidas (ONU). Tal é conquista do 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, de 1992, cujas discussões e proposições em relação ao racismo e ao machismo enfrentados por mulheres negras nas Américas e em todo o globo levaram a ONU a reconhecer a data no mesmo ano.

Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, em Mulheres Negras do Brasil apresentam imagem de estátua em homenagem a Teresa de Benguela, localizada na Vila Bela da Santíssima Trindade, MT, antigo quilombo de Quariterê. Os autores também relembram na obra sobre a importância de Teresa e tantas outras mulheres para o progresso dos direitos dos negros no país e para o combate à colonialidade: “Desde que chegaram ao solo brasileiro, a vida das mulheres negras foi marcada pela fé e pela superação. Até mesmo filhas da nobreza eram transformadas em escravas pelas mãos dos europeus. Foi o caso, por exemplo, de Na Angotimé, rainha de Daomé (hoje, Benin) que veio para o Brasil como escrava e fundou a Casa das Minas, em São Luís (MA); de Anastácia, filha de uma princesa africana, que se sacrificou para ajudar escravos e que muitos cultuam como santa; de Teresa de Benguela, rainha africana que liderou o revolucionário Quilombo do Quariterê e alavancou a economia na região do pantanal mato-grossense; de Aqualtune, avó do lendário Zumbi e organizadora, ao lado de Ganga Zumba, de um estado negro estruturado, sob o comando do Quilombo dos Palmares”.

Palavras-Chave/TAG: #mulhernegra #escravidão #colonialidade #rainhanegra #rainhaquilombola #25dejulho  #theresadebenguela

Texto Adaptado do verbete contido no Dicionário Mulheres do Brasil e do Mulheres Negras do Brasil por: Emilson Gomes Junior e Schuma Schumaher.

REFERÊNCIAS

  • Produções acadêmicas:

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CRUZ, Teresa Almeida. O processo de formação das comunidades quilombolas do vale do Guaporé. XVII Simpósio Nacional de História: Natal, 2013. Disponível em: Microsoft Word – 1363526533_ARQUIVO_COMUNIDADESQUILOMBOLAS1.rtf (anpuh.org). Acesso em 23 nov 2022.

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